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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Uma Peça no Exílio: 'A Vida de Galileu'


Denise Fraga no papel de Galileu, na montagem de Cibele Forjaz.


(texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo, em 19/09/2015) 


A montagem Galileu Galilei, dirigida por Cibele Forjaz e exibida recentemente na programação do 22º Porto Alegre Em Cena, trouxe à memória os acontecimentos que marcaram a escritura desta que é uma das mais conhecidas obras do teatro alemão. 

A Vida de Galileu é uma pérola dentro da dramaturgia de Bertolt Brecht, e não apenas por nos apresentar uma panorâmica da biografia de Galileu Galilei, nome fundamental na evolução da ciência e na história da humanidade, mas também por nos proporcionar um olhar aprofundado a respeito dos dilemas que o próprio autor da peça vivenciou através das décadas. As quatro versões do texto (algumas fontes admitem somente três) servem como mapa das transformações psicológicas do dramaturgo, que viu no personagem histórico uma forma de expor o contexto político cambiante de que ambos foram reféns. 




A primeira versão da peça foi escrita em 1933, no tricentenário da condenação de Galileu, enquanto Brecht estava no exílio. Ele havia acabado de deixar a Alemanha (por pouco tempo, conforme acreditava) após Hitler ser nomeado Chanceler e o nazismo começar a ensaiar seus primeiros gestos de terror, no início daquele ano. Apesar do enorme prestígio entre público e crítica, as obras de Brecht foram queimadas e proibidas em todo país. No entanto, elas continuaram circulando clandestinamente, muitas vezes cruzando as fronteiras escondidas sob os casacos de amigos ou talhadas na memória destes. Com uma abordagem mais heroica, esta primeira versão foi – segundo o teórico francês Bernard Dort – escrita “...para servir de exemplo e de conselho aos sábios alemães tentados a abdicar seu saber nas mãos dos chefes nazistas”. E também seria um recado claro e otimista ao povo alemão, já que reafirmava através da voz de Galileu o preceito do também astrônomo Nicolau Copérnico que dizia que, apesar de tudo, “a terra se move”; em outras palavras, era uma forma de lhes lembrar, mesmo à distância, que as novas ideias iriam prevalecer, a despeito da ignorância e das trevas lançadas sobre aquela nação. 

Porém, a história nos provou (mais de uma vez, aliás) que qualquer traço de sensatez pode ser facilmente soterrado pela brutalidade e pelos gritos dos irracionais. E assim, enquanto fugia de país em país sistematicamente invadidos pelos nazistas, Brecht escreveu uma segunda versão entre os anos 1938/39. A essas versões iniciais, infelizmente, não temos acesso aqui no Brasil, apenas a resquícios bibliográficos que nos permitem entender sua progressão como escritura dramática e temática. 


Primeira montagem de "A Vida de Galileu", em Zurique (1943).

Após a estreia mundial em Zurique, em 1943, uma nova revisão começaria, agora com a colaboração do ator Charles Laughton. Iniciada em 1944 e concluída dois anos depois, a terceira versão de A Vida de Galileu foi levada aos palcos dos EUA quando Brecht estava por lá, exilado com sua família. Pouco antes, o mundo vira o Japão ser arrasado pelas duas bombas atômicas lançadas pelos norte-americanos – demonstração trágica e covarde que encerrou definitivamente a 2ª Guerra Mundial. Nesta nova versão, o que Brecht questionava nas entrelinhas era a responsabilidade do indivíduo nos acontecimentos da História. Sua visão atual era que a ação bem intencionada, porém inadvertida, dos cientistas ajudou o governo a cruzar a linha da ética, colaborando com o massacre que acabara de se ver. Para ele, qualquer horror perpetrado contra a humanidade é responsabilidade de cada indivíduo que dela faz parte. Sendo assim, não existiria herói que não esteja com as mãos sujas de sangue. Prova disso é que os próprios envolvidos na carnificina confirmariam, anos depois, tal raciocínio: enquanto o Nobel de Física, o alemão Albert Einstein, admitiria num mea culpa a um amigo a sua participação indireta no genocídio, o chamado “pai da bomba atômica”, o físico J. Robert Oppenheimer, iria expor publicamente durante uma entrevista para um documentário da rede NBC a sua culpa torturante. 

E apesar – ou por causa – do contexto recente, a peça teve uma carreira de sucesso. Mas mesmo isso não impediu que a perseguição ao autor continuasse. Pouco depois da estreia norte-americana, Bertolt foi convocado a depor no Comitê de Atividades Antiamericanas. Filiado ao Partido Comunista desde 1919, o dramaturgo mentiu de maneira irônica e quase farsesca aos seus inquisidores para escapar da condenação. Terminado o processo, foi absolvido – o único dentre onze investigados. Os outros dez não apenas se recusaram a responder às acusações, como também denunciaram o comitê por violações dos direitos civis. Foram condenados à prisão e ficaram conhecidos como The Hollywood Ten. No dia seguinte ao seu depoimento, Brecht partiria de sua infeliz e improdutiva temporada em solo ianque e voltaria à Alemanha, encerrando assim quase quinze anos de exílio. 


Brecht e seu filho Stefan Brecht.

A quarta e última revisão da peça foi concluída em 1956 para ser encenada pela primeira vez no seu país de origem, pela sua recém-fundada companhia, a Berliner Ensemble. A versão definitiva (a mesma a qual hoje temos acesso aqui no Brasil com tradução de Roberto Scharz) trazia um Galileu menos inclinado à coragem e abnegação do herói trágico e mais próximo das vicissitudes e contradições do homem comum. 

Ironicamente, tal qual Galileu que morrera sem ver seu último e mais importante livro – escrito durante os anos de exílio – ser publicado no país onde nasceu, Brecht também morreria sem ver essa derradeira versão de sua obra encenada na sua pátria mãe. Mesmo assim, seu legado para a história do teatro permaneceu, da mesma forma que permaneceu o legado do astrônomo e matemático italiano. E a prova da atualidade e pertinência das ideias de ambos é o que se pôde comprovar na belíssima montagem brasileira que há pouco vimos em cena.




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