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domingo, 13 de julho de 2014

OverDrama|turgias contemporâneas - reflexões sobre o texto teatral

Brasil e Alemanha entram em campo mais uma vez. Mas agora o assunto é outro.




/ OverDrama|turgias Contemporâneas – reflexões sobre o texto teatral /
Gegenwärtige OverDrama|turgies  Reflexionen über den Theatertext /

Na terça-feira, 15 de julho, no Auditório do Instituto Goethe acontecerá um bate-papo com a dramaturga alemã Rebekka Kricheldorf, autora de A Coisa do Mar, texto alemão escolhido na 5ª edição do Concurso para Novos Diretores de Teatro, promovido pelo Goethe-Institut e a Secretaria Municipal da Cultura da Prefeitura de Porto Alegre em 2013 e que terá sua estréia em 18 de julho. 

 Rebekka, nasceu em Freiburg (1974), estudou Letras (Línguas Latinas) e Escrita Cênica em Berlim e é autora de diversas peças de teatro. Atualmente integra a comissão julgadora do Prêmio de Drama do Teatro de Osnabrück. Participam também deste bate-papo a diretora teatral Camila Bauer e o ator Fernando Zugno. 

 O encontro será mediado pelo dramaturgo Diones Camargo, apresentador do OverDrama, programa semanal da rádio online Mínima.fm, que aborda notícias e novidades do teatro, cinema, literatura e outras artes. Este evento é uma parceria da Secretaria Municipal de Cultura, Coordenação de Artes Cênicas, Festival de Teatro Porto Alegre em Cena e Goethe-Institut Porto Alegre. 


SERVIÇO 

OverDrama|turgias Contemporâneas – reflexões sobre o texto teatral 

Debate com Rebekka Kricheldorf, Camila Bauer e Fernando Zugno | mediação: Diones Camargo

Dia 15 de julho, às 20h 

Tradução simultânea 

Auditório do Goethe - Institut | Rua 24 de Outubro, 112
+55 51 21187800 | programm@portoalegre.goethe.org

ENTRADA FRANCA


Gegenwärtige OverDrama|turgies Reflexionen über den Theatertext 

Gespräch mit Rebekka Kricheldorf, Camila Bauer und Fernando Zugno | mediator: Diones Camargo

Am 15. Juli 2014, um 20 uhr

Portugiesisch / Deutsch

Uhr Auditorium des Goethe - Instituts | 24 de Outubro, 112
+55 51 21187800 | programm@portoalegre.goethe.org

EINTRITT FREI



sábado, 12 de julho de 2014

Crítica "FRAMES"

Lugares para a incerteza, por Henrique Vertchenko*

CONSIDERAÇÕES POSSÍVEIS SOBRE OS TEXTOS APRESENTADOS NA ABERTURA DA III JANELA DE DRAMATURGIA

 

* crítica publicada originalmente no blog Janela de Dramaturgia. Para ler o texto na íntegra, CLIQUE AQUI.

Em seu livro Crítica e Crise[1]o historiador alemão Reinhart Koselleck diz:

Pertence à natureza da crise que uma decisão esteja pendente mas ainda não tenha sido tomada. Também reside em sua natureza que a decisão a ser tomada permaneça em aberto. Portanto, a insegurança geral de uma situação crítica é atravessada pela certeza de que, sem que se saiba ao certo quando ou como, o fim do estado crítico se aproxima. (…) A crise invoca a pergunta ao futuro histórico.
Sendo assim, a crise ou o estado crítico evoca a instabilidade e a imprevisibilidade. No entanto, ela encerra em seu horizonte de expectativa a solução e o fim desse estado de incerteza. Tomando a liberdade de considerar tal perspectiva em relação ao campo artístico – mais especificamente à dramaturgia contemporânea -, nos deparamos com obras cujos caminhos e descaminhos, cujas montagens e desmontagens as colocam em um estado privilegiado de incerteza. Por esse motivo, a própria crítica da obra se vê desestabilizada, já que pode ser uma possível inutilidade a tarefa de se “colocar em crise” obras já assumidas em sua crise.

Os textos lidos na abertura do “III Janela de Dramaturgia” – O Narrador, de Diogo Liberano, e Frames – um  ensaio para R. W. Fassbinder, de Diones Camargo – caminham, cada um a sua maneira, nessa direção de incerteza ao colocarem em crise o estatuto de verdade por meio de constantes dissoluções de fronteiras. Assim, são borrados, por exemplo, os limites entre ficção e realidade e os limites internos à própria realidade da ficção. E é essa radical incompletude de sentidos (sejam eles estruturais ou temáticos), que, como em um jogo de espelhos, se multiplica ainda pelas interpretações e olhares dos diversos sujeitos envolvidos no ato da leitura. São estruturas que não encerram sentidos unívocos, mas cuja própria flexibilidade evidencia um esforço dos autores em promover deslocamentos na comunidade de ouvintes valendo-se da artesania da palavra como vetor desses deslocamentos.

Posto isso, obras cuja natureza já é o estado crítico propiciado pela sua abertura de sentidos, podem postergar eternamente o desejo pelo fim do estado crítico. Nesse sentido, a escritura da crítica – ao buscar os vestígios e as reminiscências talvez nas coisas narradas, nos cortes dramáticos ou nos diálogos lacônicos – se junta à obra para, como em um salão de espelhos de reflexos distorcidos, manterem a incerteza no horizonte de perguntas ao futuro histórico.

(...) 

QUADROS INCERTOS ou NARRATIVAS EM ABISMO

Logo no princípio do texto “FRAMES – um ensaio para R. W. Fassbinder”, de Diones Camargo, temos:

GARÇONETE: Mais uma noite. Outra chance pra repetir tudo de um jeito diferente. Este será o espaço para que todos se mostrem como realmente são. Mas, afinal, o que nós somos? Eu sou um atriz, vocês o público, dirão alguns. Mas será mesmo? Quem está representando, afinal? Eu, aqui, dizendo essas palavras que não são minhas, ou vocês, sentados lado a lado, com a mão pousada no braço do companheiro, mas com a cabeça aprisionada em outro lugar – um lugar mais quente e mais vivo, talvez? (…)

E a garçonete ainda diz:

(…) o que acontecer aqui dentro hoje não passará de um fragmento da alucinação coletiva a que somos obrigados a enfrentar dia após dia; pedacinhos do grande filme que – ao contrário do que acreditam alguns – não será exibido nos últimos momentos da sua vida, mas que permanecerão caídos na sala de montagem até que alguém venha e varra tudo pra debaixo do tapete do esquecimento.

Este é o momento em que somos alertados sobre o que virá a seguir e sobre a forma em que se assenta a estrutura do texto de Diones. As ideias de verdade e representação são mais do que questionadas, são bombardeada, e os lugares já normalmente codificados de ator, personagem e público são continuamente deslocados, assim como o espaço e sentido das ações representadas. Se no texto de Diogo Liberano borram-se as fronteiras entre ficção e realidade, aqui são esfacelados os limites internos à realidade da ficção. O estatuto da verdade e da verdade ficcional estabelecidos usualmente por um pacto são colocados em crise por meio de sentidos que não se completam e de constantes “rasteiras” na percepção e na interpretação.

O que se tem é um set de cinema ou emissora de TV, com seus filmes e programas sobre celebridades e telejornais sarcásticos, onde as relações pessoais se confundem com as do filme ou programa que estão gravando. Por meio de cortes bruscos nas cenas – que nos remetem à edição cinematográfica -, sucessões, sobreposições e acúmulos de cenas, personagens e situações, somos conduzidos a uma atmosfera delirante e fragmentada de sonhos, que por vezes nos lembra filmes de David Lynch. O espaço então se configura como um lugar aprisionador, onde se perdem as noções de espaço e tempo (como em um sonho), em que os personagens entram e saem, surgem e desaparecem, como pelas portas de um salão de espelhos. Se estabelece um jogo em que todos atuam mesmo sem ter consciência disso.

As referências à obra do cineasta alemão, Rainer Werner Fassbinder, são sutis e podem revelar, como indica o próprio título, “um ensaio para”, uma homenagem que se vale mais de referências ou influências pessoais do que de referências diretas. No entanto, podemos encontrar alguns vestígios do diretor alemão no fracasso das relações, muitas vezes em situações corriqueiras, nos saltos absurdos em diálogos mais ou menos cotidianos, nas interrupções e lapsos temporais e na insinuação homossexual.

Em “Frames”, filmagem, ensaio e vida pessoal se confundem em uma constante instabilidade, evocando narrativas dentro de narrativas, como “mise en abyme” distorcidos ou em um salão de espelhos. Os próprios papéis se confundem, como um “Não ator” que é um escritor chamado para atuar por um assistente de direção. Se alternam cenas desse personagem sendo procurado para atuar e se relacionando com outros personagens, como a esposa, a amante e a analista. Suas sessões no analista podem ser uma representação irônica da própria ideia de autor, aquele que não consegue manter a clareza das ideias e é incitado a escrever em meio ao caos. No entanto, nunca é seguro dizer se as suas situações são lapsos de memória, momentos no instante do ocorrido ou a gravação das cenas do papel que querem que ele faça.

Há também momentos de efeito cômico provocados por situações absurdas, como alguém que vai parar em uma gravação por acaso:

B: O que você está fazendo?
A: Ora, que pergunta idiota.
B: Por que idiota?!
A: Porque aqui a gente só faz uma coisa. E é isso o que eu estou fazendo agora. Aliás, você também está.
B: Mas eu não estou fazendo nada!
A: Não lhe disseram?
B: Disseram o quê?
A: Antes de jogarem você de lá onde você estava não lhe disseram o que a gente faz aqui?!
B: Não.
A: Tem certeza?
B: Não… Quer dizer, sim, tenho certeza! Antes de me jogarem pra cá só ouvi isso: “é a sua vez de entrar! MERDA!

Aqui, evidencia-se que esses personagens não tem nenhum controle sobre o que lhes acontece e não sabem ao certo o que fazem ali, assim como o ouvinte/espectador, que, propositalmente, é levado a perder-se entre ensaios, gravações e situações corriqueiras ou absurdas, fazendo com que a ideia de “vida real” seja explodida. Essa situação é levada ao ridículo e adquire seu símbolo máximo na personagem da palestrante, uma escritora sem livros publicados que dá dicas para mulheres e fala de si, sob constantes bloqueios (pessoais e da possível narrativa), e fala do “amor e suas contradições” e de suas desilusões amorosas. São discursos da futilidade que levam ao paroxismo a vida pessoal publicizada.

Dessa maneira, Diones Camargo, reunindo fragmentos e excertos que ficaram de fora de outros textos seus, apresenta uma dramaturgia sofisticada que se questiona, se ironiza e rompe constantemente os limiares das certezas. Com suas “narrativas em abismo”, a suposta verdade da própria ficção representada é constantemente desestabilizada e desconstruída. Afirma, assim, algo que muitas vezes ainda é esquecido: que a produção de sentidos, experiências e elos entre fragmentos isolados também é dever do espectador. E conclui, abrindo portas:

MESTRE DE CERIMÔNIAS: E lembrem-se: não há espaço pra verdades aqui; somos apenas máscaras e reflexos; ficções, nada mais do que isso. Pequenas luzes espalhadas numa enorme cidade imaginária desenhada pelo autor, vivendo dentro e fora dele ao mesmo tempo. Então, ao sairmos desta sala, eu espero que vocês transformem a cidade lá fora num enorme palco para que cada um de nós atue na vida da forma mais irreal possível. Não há nada além do que está escondido.

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[1] KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Tradução de Luciana Villas-Boas Castelo-Branco. Rio de Janeiro: EDUERJ: Contraponto, 1999.
[2] BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. 


Henrique Vertchenko é mestrando do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na linha de pesquisa História e culturas políticas. Licenciado em história pela mesma universidade, é atualmente pesquisador estudante do grupo de pesquisa “Projeto Brasiliana: escritos e leituras da nação”, dando ênfase a história, teatro e crítica teatral. Também é ator formado pelo Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado (CEFAR/ Palácio das Artes), tendo feito a direção e a dramaturgia do espetáculo “Pas de deux para 2 mulheres” e a assistência de direção e a trilha sonora do espetáculo “…E peça que nos perdoe”.

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