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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Não Vá ao Teatro...

...Mas Antes Pergunte-se o Porquê

Em agosto do ano passado participei de um debate no seminário intitulado "A Nova Dramaturgia Gaúcha Contemporânea" a convite de seu idealizador, P. R. Berton (também autor e diretor, agora radicado nos EUA), para as comemorações do aniversário de 40 anos do Teatro de Arena. Nos três dias de debates estiveram presentes dramaturgos em atividade no RS, como Hermes Bernardes Jr., Felipe Vieira, Claudio Benevenga, Artur José Pinto, Luis Francisco Wasilewski, Marcio Silveira, entre outros, e juntos falamos sobre a situação atual da nossa profissão.

Na época fiz uma piada que me pareceu um tanto quanto mordaz, mas que hoje penso ser apropriada para lançar-nos a uma discussão importante: existe mesmo uma dramaturgia gaúcha contemporânea? A resposta é afirmativa. Existe pouca, é verdade, mas existe. Temos grandes autores na história do nosso teatro: Qorpo Santo, Vera Karam, Carlos Carvalho e Caio Fernando Abreu são de grande importância para a dramaturgia brasileira; Ivo Bender continua escrevendo e recentemente lançou uma nova peça. Mas quem são os representantes da safra de jovens dramaturgos do nosso Estado?

A carência de novos autores ocorre em todas as regiões do Brasil, mas nos grandes centros, como Rio de Janeiro e São Paulo, devido à produção teatral diversificada e aos núcleos de formação, essa falta é menos acentuada. Porém, se considerarmos apenas o teatro feito aqui em Porto Alegre, constataremos a supremacia de peças de autores estrangeiros que são traduzidas e encenadas nos nossos palcos, enquanto muitos dramaturgos brasileiros ainda têm suas obras ignoradas, mesmo aquelas que obtiveram algum destaque. Não estou propondo uma retaliação aos textos estrangeiros (seria ingenuidade sugerir tal absurdo!). Obviamente a qualidade é o nivelador dessa predileção dos encenadores e dos grupos e, independentemente da origem, me refiro nestas linhas apenas à dramaturgia que mereça tal definição. Mas, ainda evitando a ingenuidade, sabemos que a excelência e constância de qualquer produção artística tem a ver com uma política de investimento no aparato cultural e, nesse aspecto, ainda ficamos bem atrás de outros países. O que quero dizer é que me parece que em alguns casos o atrativo do "além-mar" norteia a nossa cena teatral. Questiono se o desconhecimento da maioria dos artistas quanto aos nossos autores é mera desatenção ou se é efetivamente um hábito. Se for o que penso, esse hábito passará por uma transformação, pois nos últimos anos surgiram diversos concursos e incentivos para a criação de textos dramáticos de qualidade. Pode levar algum tempo ainda e requerer certa dose de paciência. De nossa parte, resta abrirmos os olhos e os ouvidos para as obras que estão surgindo.

Além dos dramaturgos referidos no primeiro parágrafo deste artigo, posso citar aqui uma pequena lista daqueles que de alguma forma estão produzindo obras interessantes para uma atualização da dramaturgia gaúcha: Felipe Vieira (IntenCidade I - Voar), Carina Sehn (Código de Barras), Paulo Scott (Crucial Dois Um), Mary Farias e Paulo Gleich (os dois últimos ainda inéditos nos palcos). Em comum todos buscam uma expansão das possibilidades narrativas até aqui experimentadas. Além da preocupação com a forma e — principalmente — o discurso, esses autores partem de referências contemporâneas para abordar temas atuais, buscando o diálogo com espectadores que possivelmente não se sentem identificadas com a maior parte dos conflitos e personagens representados no palco.

Essa nova safra de dramaturgos do RS tem o desafio que é o de não apenas renovar uma tradição do texto teatral (mesmo porque isso freqüentemente acaba na mera pretensão), mas principalmente o de falar a um público desacostumado à linguagem dos palcos, despertando novos significados em novas platéias. E é importante ressaltar que o fato de escrever pensando numa determinada audiência não deve ser considerado como concessão artística (muitos dos grandes escritores usaram esse faro para a criação das suas mais importantes obras); a constatação de que o espectador é o interlocutor primordial para o evento teatral move a roda da dramaturgia.

Quando escrevi minha primeira peça, Andy/Edie (2006), não imaginava que esta atrairia um público tão vasto. Por mérito dos artistas envolvidos na montagem e do próprio texto, que trazia à cena personagens que hoje permeiam o imaginário contemporâneo, foi isso o que aconteceu. O tema (a necessidade abusiva de fama para suprir carências mal resolvidas) e a abordagem (diálogos sarcásticos e cruéis para falar de relações descartáveis numa sociedade de consumo voraz) foram decisivos para esta identificação. Escrevi o que quis, como quis, no isolamento do meu quarto — consciente de que este isolamento é apenas físico, nunca cultural. O reconhecimento artístico desta empreitada foi apenas uma parte da satisfação obtida: o fato de ser abordado em bares por jovens que nunca haviam pisado numa sala de espetáculos e que comentavam empolgados sobre como a peça os divertiu e comoveu foi um incentivo determinante para a criação do meu segundo texto, Parque de Diversões (2008), escrito em parceria com um amigo de longa data, o também ator e diretor Marcos Contreras.

Nesta peça seguimos o exemplo do movimento que ocorre hoje na Praça Roosevelt, em São Paulo. Os espetáculos ali apresentados visam atrair um público de 20 a 30 e poucos anos, mas que não encerram apenas nele seu campo de visão. Apostando numa dramaturgia despretensiosa, com produção independente e feitas para uma circulação imediata, as montagens se sucedem rapidamente em horários e temporadas consecutivas nos espaços que se acumulam numa única rua. O teatro produzido na Praça Roosevelt fez ressurgir o interesse dos jovens pela linguagem do drama. E isso acabou atraindo outras platéias também. Seus freqüentadores, bebendo nos bares ou em pé na calçada enquanto aguardam a sessão da peça de seu interesse, discutem sobre o que viram e fazem daquele um saudável ambiente de renovação do teatro Brasileiro. Mas isso é diferente do que podemos classificar como "teatro temático", algo que tem sido feito aos montes e que, apesar de garantir a sobrevivência de alguns poucos mambembes, em nada contribui para a formação de um público heterogêneo. Normalmente, vicia o público num único tipo de espetáculo e o afasta de outras propostas de encenação — inclusive daquelas onde o drama tenta uma libertação de seu interlocutor, caso que a dramaturgia contemporânea por vezes investiga. Me refiro a um teatro que dialogue com diferentes espectadores, oferecendo referências com as quais estes possam se relacionar, abrindo espaço à transformação.

Em Parque de Diversões criamos uma obra que nasceu com vistas a um determinado público, mas que também não o tinha como único alvo. Mesmo sendo um texto por vezes demasiado autoral, os conflitos do personagem são muito parecidos com os dramas da nossa geração. Porém, como sabemos, o conceito de geração hoje não é mais tão estanque quanto há algumas décadas, portanto tínhamos consciência de que estávamos mexendo num vespeiro bem mais complexo do que poderia aparentar. E também sabíamos que não estávamos criando uma "peça temática", pois como autores falaríamos de experiências e referências culturais que supostamente todos os espectadores reconheceriam, mas que não necessariamente teriam vivenciado da mesma maneira. E para mantermos a identificação entre personagem e platéia, nos concentramos no que de essencialmente humano tínhamos para contar. E isso, como se sabe, sempre salva qualquer obra.

Estreamos no inicio de Março, no Espaço Ox, do bar Ocidente, aqui em Porto Alegre. O resultado foi uma acirrada divisão de opiniões: houve aqueles que adoraram e voltaram outras vezes, como também houve aqueles que detestaram. Apesar disso, estou certo de que a nossa função como artistas foi cumprida. Atraímos um público ainda pouco presente nas salas de espetáculos e o confrontamos com uma proposta paradoxalmente familiar e inabitual. E como a tarefa do teatro nem sempre é agradar, mas sim provocar as pessoas para que — mesmo que de uma forma desconfortável — estas um dia reajam, posso ter esperança de que algum dos que ali estiveram presentes tenha chegado em casa e corrido pra queimar aquela sua infame camiseta com a frase "vá ao teatro... mas não me convide". A nova dramaturgia gaúcha agradece.
Diones Camargo

Fotos Pamela Ferrer
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Foto (azul) de Anderson Astor

Texto Publicado Originalmente no Blog Caco (Zero Hora. Com)

http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&local=1&template=3948.dwt&section=Blogs&post=57991&blog=359&coldir=1&topo=3951.dwt

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Parque de Diversões

Deitado em sua cama, o protagonista – um homem que se sente anestesiado pela realidade à sua volta – comenta à platéia as circunstâncias que o levaram àquele estado de absoluta letargia. Em meio a lembranças, consumo, ironias e abuso de drogas, ele enxerga nas circunstâncias apenas desculpas para refugiar-se em seu apartamento. Sua paz (se é que existe alguma) só é rompida pelo parque de diversões que fora montado bem em frente à sua janela e que insiste em, dia após dia, invadir seu quarto com ondas de intolerável alegria. Apesar do tema, o texto é contaminado pela ironia e pelo sarcasmo, numa mistura inusitada de monólogo dramático com Stand-Up Comedy.

Clique aqui para visitar o blog da peça Parque de Diversões

Parque de Diversões (2008)

Texto e Direção: Diones Camargo e Marcos Contreras

Atuação: Marcos Contreras

Trilha: Pablo Sotomayor
Iluminação: Carina Sehn
Cenário: idéia dos autores executado por Gabriela Silva
Vídeos: Daniel Laimer
Divulgação e Ilustrações: Gabriela Silva
Material Gráfico: Eder Gusatto

Produção: Marco Mafra e Gabriela Silva

Andy / Edie

FAMA, GLAMOUR, VAIDADE, MORTE.


Nova York, 1965. O artista pop Andy Warhol conhece Edie Sedgwick, uma garota de apenas 22 anos, linda, rica, amiga de celebridades e possuidora de algo que foi definido por ele como "Glamour Elétrico". Nesta mesma época Edie mantinha uma relação conturbada com o jovem músico Bob Dylan, que não fazia questão de esconder seu desprezo por Andy e seu desagrado pela amizade entre a jovem modelo e o mestre da Pop Art.

ANDY/EDIE (2006)
*Premio Funarte de Dramaturgia 2005
*Indicado ao Prêmio Açorianos de Melhor Dramaturgia

Texto: Diones Camargo
Direção: João Ricardo

Elenco:
Sissi Venturin
Rodrigo Scalari
Lisandro Bellotto
Alexandra Dias
Michel Capeletti
Ravena Dutra
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Produção: Daniel Gabardo

Buarqueanas


Múltiplas visões do universo feminino através do encontro hipotético de algumas figuras da obra de Chico Buarque, explorando a desconstrução da narrativa, numa dramaturgia construída na interação entre música e texto dramático.
Clique Aqui para Ver Fotos do Espetáculo por Luciana Mena Barreto
Direção Cênica: Arlete Cunha
Dramaturgia: Diones Camargo
Direção Musical e Trilha Sonora: Mateus Mapa e Leonardo Boff

Elenco:
Márcia Kopczynski
Patrícia Unyl
Clarice Nejar
Cristiane Bilhalva
Ekin
Ed Lannes
Juliano Barros

Direção Geral: Patrícia Unyl
Pesquisa, Concepção e Direção Artística: Márcia Kopczynski e Patrícia Unyl

Músicos: Ed Lannes, Nicola Spolidoro e Mateus Mapa
Preparação Vocal: Cláudia Braga
Orientação Corporal: Cláudia Sachs
Cenografia: Fernando Bakos, Lisiane Rabello e os Cowbees
Instalação: Lisiane Rabello e os Cowbees
Projeto Gráfico: Fernando Bakos e Daniel Ferreira
Arte Final: Daniel Ferreira e Inês Hübner
Orientação de Figurino: Patrícia Preiss
Iluminação: Mirco Zanini
Fotografia: Luciana Mena Barreto
Divulgação: Sandra Alencar
Produção: Inês Hübner

Exposição de Bustos de Nina Eick e de fotos de Luciana Mena Barreto
Participação Especial de Maria Vai com as Outras

Financiamento: Fumproarte

Contato Produção - 9866 8571

Sobre Andy / Edie

A idéia de escrever a peça Andy/Edie surgiu no final de 2004 após a leitura da biografia de Andy Warhol. Determinado trecho havia despertado em mim um estranho interesse: as páginas relatavam o período entre os anos de 1962 e 1967, aproximadamente, época em que Warhol foi apresentado a Edie Sedgwick, uma garota de apenas 22 anos e herdeira de uma fortuna milionária. Pouco conhecida no Brasil, Edie foi (e ainda é) uma referência de moda e comportamento; de certo modo, um ícone do século XX.

Com seu trabalho já reconhecido pela crítica e pelos outros artistas de sua geração, Warhol estava cada vez mais interessado nas experiências cinematográficas que vinha realizando no seu famoso ateliê, a Fábrica Prateada. Ao conhecer Edie ele imediatamente encantou-se pelo seu "glamour elétrico" e convidou-a para participar de suas produções com a promessa - sempre indefinida - de torná-la uma estrela. Nessa mesma época Edie mantinha um relacionamento conturbado com o músico Bob Dylan. Compositor influente entre os jovens e intelectuais militantes de sua geração, Dylan era reconhecidamente avesso aos ideais dos artistas da POP ART e nutria um especial desprezo por Andy Warhol devido ao seu comportamento excêntrico e à sua visão de arte como objeto de consumo. Desde o início o jovem músico foi contra a relação de amizade entre Andy e Edie - o que provocou diversos boatos que hoje permeiam as páginas de suas biografias.


Foi em meio a esse duelo de dois grandes "devoradores de pessoas" que Edie repentinamente foi jogada no grande paradoxo dos anos 60: vivia-se num período onde tomar uma posição era obrigatório; uma questão de necessidade política. Escolher um dos lados significava dar um passo na grande marcha revolucionária que ansiava por liberdade em todos os cantos do mundo. Mas ao fechar-se numa opção apenas, talvez o indivíduo perceba mais claramente os limites do que se costuma chamar de liberdade.

Para Edie a escolha entre a amizade de Andy ou Dylan foi amplamente afetada pelos sentimentos os mais diversos e é a busca da compreensão destas motivações o que me interessa no desenvolvimento da peça (o abuso de drogas pesadas, que levaram-na a morte por overdose aos 28 anos, é certamente um elemento importante, mas não o principal). Concentrando-me na alegoria sugerida por estas figuras e situações reais, trabalhei visando a análise de três temas que a mim parecem cruciais para entendermos as necessidades criadoras para qualquer artista, em qualquer época: a estreita ligação entre a vaidade, a arte e a morte. O arte como possibilidade de superação da morte e como reflexo do ego de quem a faz. E, paralelamente, o sucesso e o reconhecimento como uma célula independente do trabalho criador, mas que pode estar perfeitamente ajustada ao outro.

Por nunca ter tido a intenção de recriar nos palcos os detalhes de uma biografia, os dados específicos do contexto político e histórico foram conscientemente ignorados no texto. Também não poderia ser muito diferente: a relação de poder e opressão a que Edie fora submetida por dois dos maiores artistas americanos do século passado nada tinha a ver com um tipo de identificação artística ou de uma consciência política sobre sua realidade. A necessidade do poder, o pueril encanto do estrelato, o desejo de ser reconhecido, amado e compreendido é o que leva a todos em Andy/Edie, sem exceção, a agir conforme seus mais duvidosos instintos de sobrevivência. Uma espécie de Reality Show (muito antes de surgir este conceito na mídia) onde o grande prêmio não é simplesmente dinheiro ou a fama, mas tudo aquilo que a cultura da celebridade promete como o ideal para todos: essa versão fantasiosa de nós mesmos que esconde nossos ferimentos mais profundos; o glamour que não cura a ferida, mas que a cobre com ouro em pó e utiliza nosso sangue como complemento plástico da beleza e do sacrifício.

Diones Camargo

Dramaturgia Líquida


Dramaturgia Líquida - Assimilação de Influências no Texto Teatral

Workshop que abordará as diversas interferências criativas presentes no processo de escrita de uma peça até a sua tranposição para a cena. Dividido em dois encontros, serão analisadas as possibilidades narrativas no teatro contemporâneo, a utilização de referências culturais na dramaturgia, o espaço do autor e a linguagem como sentido da obra.

Inscrições gratuitas mediante envio de carta de intenção (contendo nome completo, idade e profissão) para e-mail teresaeoaquario@gmail.com

19 e 20 de Novembro
das 18h30 às 21h30

Teatro de Arena - Porto Alegre

Maiores Informações: http://www.teresaeoaquario.blogspot.com/ .
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