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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Atores em Pele de Cordeiro


Hans-Thies Lehmann, na sua Bíblia sobre o teatro contemporâneo intitulada Teatro Pós-Dramático (talvez uma obra ainda muito recente pra ser chamada exatamente de Bíblia, mas que já tem inúmeros fiéis que a seguem como tal) cita constantemente os quatro cavaleiros do apocalipse da cena contemporânea: Heiner Müller, Bob Wilson, Elfried Jelinek e Nekrosius. Fosse o livro de Lehmann o jogo dos seis graus de separação, ao menos três destes nomes se conectariam instantaneamente depois deste Quartett.

Choderlos de Laclos compôs seu romance epistolar As Relações Perigosas valendo-se das figuras de nobres franceses para mostrar que a combinação entre conforto material e tédio profundo pode causar infortúnios múltiplos – especialmente àqueles que nada têm a ver com isso – numa crítica à falência moral do período em que viveu. Já Heiner Müller dividiu os cenários de sua peça entre um salão da aristocracia pré-Revolução Francesa e um bunker pós-Terceira Guerra Mundial, reafirmando a permanência destes males. Apesar disso, a dramaturgia de Müller – em que pese sua sempre pertinente atualização dos mitos, arquétipos e fatos históricos, e sua incrível capacidade de sintetizar o pensamento de uma obra ao transpô-la para as gerações atuais – tem, em Quartett, talvez o seu trabalho mais restrito e óbvio em termos imagéticos e metafóricos. Laclos, utilizando uma linguagem rebuscada (comum à época), ainda consegue ser mais cruel e infinitamente mais terrível do que o dramaturgo alemão.

E é aqui que reside o principal mérito da montagem de Wilson: Quartett, como era de se esperar, é uma ópera de extremo apuro visual, uma máquina cênica precisa. O fascinante acúmulo de texturas sonoras expande o efeito puramente verborrágico e poético do texto de Müller (às vezes repetindo-o à exaustão), dissolvendo-o até torná-lo mero contraponto aos gestos e às imagens que aparecem no palco. Porém, é importante questionar se o que é alardeado por Lehmann nos seus escritos (que a primazia do texto acorrenta o espectador somente numa possibilidade da cena) também não acontece aqui, pelo seu oposto: uma visualidade sedutora, deliciosa e tecnicamente perfeita, porém igualmente escravizante. (voltando ao Nekrosius, o Fausto que ele dirigiu era bem mais impactante ao utilizar variações de texturas visuais e sonoras igualmente belas, baseando-se principalmente na inventividade que estas ofereciam à cena, o que tornava a conexão entres todos os elementos muito mais eficiente).

Apesar disso, não há como não ficar embevecido com as variações constantes de elementos e cores na cena arquitetada por Wilson. Os corpos que projetam signos instigantes e se distorcem (afastando qualquer possibilidade da representação tradicional baseada meramente em personagens) e as vozes que se animalizam. Aliás, esta escolha por transformar os atores em feras (tigres, répteis, lobos, cães, etc) intensifica ainda mais as figuras diabólicas de Isabelle Huppert e Ariel García Valdés que, desde os figurinos, passando pela maquiagem, mas principalmente nas atuações formidáveis, condensam em si a carga demoníaca dos personagens que “interpretam”. Esses símbolos do horror, colocados lado a lado a um deleite visual constante, nos obriga a lembrarmos de que se trata de uma luta entre o bem e o mal, onde os limites entre um e outro são confundidos o tempo todo – num jogo de ambiguidades complexas, como convém quando se analisa esses conceitos extremos. Algo como um aviso permanente de que existe sempre um Valmont e uma Merteuil à espreita para devorar suas caças, que são não apenas os outros personagens, mas também eles próprios. Esta é, evidentemente, uma reafirmação da estrutura dramatúrgica utilizada por Müller no texto, que por sua vez é baseada na constatação ferina de Laclos de que qualquer desvio de caráter é facilmente esquecido quando vemos à nossa frente uma bela arcada dentária e um vistoso aparelho de chá. E isso, quer Laclos, quer Müller tenham denunciado – e Wilson se deliciado como ninguém –, nunca muda. Vive La Révolution!

Clique no link abaixo para ler o trecho do texto publicado no Segundo Caderno do jornal Zero Hora: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2665546.xml&template=3898.dwt&edition=13200&section=999

Clique aqui para ler a versão completa no blog Caco ZH

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O Papel do Ator

por Diones Camargo*

Vocês querem falar de amor e de sofrimento aqui em cima? Aqui em cima isso não vale nada, porque aqui tudo é mentira! O verdadeiro sofrimento está lá fora, nas ruas”. Foi com esta chicotada que a atriz Paula Zúñiga encerrou o espetáculo Neva, na noite do último Sábado, sob a respiração suspensa de um público que até bem pouco vinha se divertindo exatamente com esta característica irreal do teatro, e também com a capacidade intrínseca aos atores em transitar de um estado emocional ao outro sem necessariamente sentirem coisa alguma em suas vidas.

Escrito e dirigido por Guillermo Calderón – e interpretado por um trio de atores extraordinários – a dramaturgia impressiona por juntar fatos históricos, materiais colhidos em improvisações e trechos da obra do dramaturgo Anton Tchekhov. Neva é de radical coerência em sua proposta: numa caixa montada sobre o palco estão um tapete vermelho, uma cadeira e uma simples estufa – que, aliás, é todo o equipamento de iluminação da peça e que, conforme é movida no palco, possibilita uma vasta quantidade de informações visuais. Além disso, cenas lembram imagens de peças e fotos do período.

Mas somente quando os uivos da revolução invadem a cena é que vemos os dois tipos de sofrimento – o do teatro e o dos miseráveis – se distinguirem. Em determinado momento, Olga Knipper, atriz e viúva de Tchekov, afirma não lembrar o que sentiu quando o escritor morreu. Eles então encenam a morte do dramaturgo, numa espécie de psicodrama que, ao invés de ajudá-la a resgatar os sentimentos recalcados, a atira num prazer egoico por reviver uma situação de alto conteúdo emocional, porém irreal. E é neste jogo entre expressar sentimentos complexos e ser incapaz de sentir algo verdadeiro com a realidade à sua volta que faz de Neva uma obra que questiona não apenas o papel do artista na sociedade, mas principalmente o papel da compaixão humana na obra do próprio artista.

*Texto publicado originalmente no Segundo Caderno do jornal Zero Hora:

domingo, 2 de agosto de 2009

A Roda Gigante Voltou a Girar


"(...) É o que eles chamam de "stand up comedy" às avessas. Com um texo muito bem escrito e com um ótimo ator, a peça foi uma boa surpresa pra mim. Gostei muito mesmo. (...) Recomendo aos meus amigos escritores e rockers que não gostam muito de teatro. Nunca é tarde pra rever uma opinião."

Mário Bortolotto - Blog Atire no Dramaturgo

"Parque de Diversões é um alívio, é um trabalho que sabe o que é, conhece o seu público e sabe até onde toca. É lindo de tão caseiro, de tão umbilical."

Alexandra Dias - Blog Caco ZH


Um ano e meio após a estréia, Parque de Diversões volta em cartaz dia 05 de Agosto, às 21h, no Espaço Ox, do bar Ocidente. O monólogo, escrito e dirigido por Diones Camargo (Andy/Edie, Teresa e o Aquário) em parceria com Marcos Contreras (Cão Sem Dono, Édipo), discute a alienação do mundo contemporâneo através da figura de um homem que se sente anestesiado pela realidade à sua volta. Deitado em sua cama, o personagem comenta à platéia os fatos que o levaram àquele estado de absoluta letargia. Em meio a lembranças, consumo, ironias e abuso de drogas, ele enxerga nas circunstâncias apenas desculpas para refugiar-se em seu apartamento. Sua paz só é rompida pelo parque de diversões que fora montado bem em frente à sua janela e que insiste em, dia após dia, invadir seu quarto com ondas de intolerável alegria. Apesar de ter cumprido apenas quatro apresentações no ano passado, a peça virou “cult” entre o público jovem de Porto Alegre. A nova temporada – que se estende durante todo o mês de Agosto, sempre às quartas-feiras – trará mudanças na estrutura do espetáculo, mas sem deixar de lado o sarcasmo e a ironia que caracterizam esta inusitada mistura de monólogo dramático com stand-up comedy.


FICHA TÉCNICA:

PARQUE DE DIVERSÕES

Texto e Direção: Diones Camargo e Marcos Contreras

Atuação: Marcos Contreras

Produção: Rafael Ortiz e Márcio Domingues

Iluminação: Carina Sehn

Trilha: Pablo Sotomayor

Cenário: Idéia dos autores, executado por Gabriela Silva

Vídeos: Daniel Laimer

Participação Especial: Elisa Volpatto

Divulgação: Márcio Domingues, Pati Savaris e Ana Paula Galvão

Material Gráfico: Eder Gusatto e Márcio Domigues

Ilustrações: Gabriela Silva

Equipe Adicional: Raul Trindade, Karina Kinger e Mariana Terra

SERVIÇO:

De o5 a 26 de Agosto, todas as Quartas-feiras, às 22h.

Espaço Ox - Bar Ocidente (Av. Osvaldo Aranha, esquina com a João Telles)

R$ 15,00 com uma cerveja

Duração: 50 min.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Teresa e o Aquário - Temporada Julho/2009



De 01 a 29 de Julho, todas as Quartas-feiras, sempre às 21h30.
Espaço OX do Bar Ocidente (Rua João Telles, esquina com a Osvaldo Aranha)
Ingressos a R$ 15,00 (com uma cerveja)

Comentários sobre a Peça:

  • “(...) a mais concreta, orgânica e representativa experiência pós-moderna que já tive a oportunidade e o prazer de assistir nesta minha já longa vida pós-bonde e pós-máquinas Remington (...)”.

Luiz Paulo Vasconcelos – Revista Aplauso

  • “(...) Dá gosto e orgulho ver a coragem da Cia Espaço em Branco ao descartar fórmulas teatrais consagradas para contar sua história. Assumindo o risco, o grupo partiu da história para construir uma fórmula original, alheio a caminhos mais fáceis para o público e para o elenco (...)”.

Renato Mendonça – Segundo Caderno / Zero Hora

  • “(...) Um não sei tanto de sensações emotivas (...) Isso tudo porque estive numa pequena sala vivendo um grande teatro. E viva Artaud! E vivas a todos vocês! Obrigado.”

Arlete Cunha

  • “(...) Teresa e o Aquário se apresenta como montagem teatral, dramatugia. No entanto é um processo hibrido de performance dramática, música, vídeo-art, filmagem e projeção executado em tempo real; proposta ousada e intensa capaz de provocar reações de amor e repulsa em iguais proporções, a meu ver, este é seu mérito, um tanto enigmático (...)”

Gue Martine – Vista Skateboard Art

  • “(...) Criatividade, talvez seja a palavra, porque João e com certeza toda a sua afinada equipe (atores, dramaturgo, multimídia, etc) esbanjam na criação de imagens que causam forte impacto sensorial em seus espectadores. Achados maravilhosos. Propostas radicais, ousadia. (...) Fazia tempo que uma peça não me provocava tanto. No marasmo desértico que anda o nosso teatro, ver a peça do João é como chegar num oasís. A construção dramaturgica de Diones Camargo é raro brilho, principalmente na voz e no corpo dos atores. (...) A peça fica com a gente, fica na gente. Remexeu o meu aquário de imagens, recordações, situações. Teatro puro.
Roberto Oliveira - Modesto Fortuna

  • "Fui ver Teresa e o Aquário e sai mal do teatro. E ao mesmo tempo muito feliz. A impressão que eu tive é que estava diante de algo realmente novo, não novo no mundo da arte (o espetáculo é uma explosão de referências maravilhosas), mas novo aos olhares de Porto Alegre (...).
Felipe Vieira de Galisteo

  • “(...) vale a pena tirar suas bundas de casa e ir ao teatro ver Teresa e o Aquário, que é um espetáculo irônico, divertido, catártico e muito bonito (...)”

Mari Messias

  • "(...) Vi no palco um pouco de cada e mais uma infinidade de referências e coerências com o que admiro de melhor de todas artes. Que felicidade (...)"
Fernando Bakos

  • "(...) Fui envolvida, foi isso. Duas horas que mais pareceram dez minutos imersa no aquário de Teresa (...) Desse aquário, cada um pesca o que quiser.”
Cami Farina - Maria Cultura

  • "(...) Talvez eu já tenha visto isso em Gerald Thomas."
Professora da Kalisy

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Teresa e o Aquário - Crítica Revista Aplauso #98

Crítica de Luiz Paulo Vasconcellos - Revista Aplauso #98 (Fev/2009)

Eu, que nasci no tempo do bonde e das máquinas Remington, confesso que nunca tive grandes dificuldades para acompanhar o surgimento de obras de alguns dos mais revolucionários ícones do modernismo - Dali, Bracque, Boulez, Ionesco, Beckett, Joyce, Kafka - mas confesso que tenho muita resistência para reconhecer legitimidade e coerência em obras situadas no contexto do pós-modernismo. Para mim, pós-moderno passou a ser apenas um recurso retórico, um discurso acadêmico, sem uma obra sequer, fosse em teatro, cinema, literatura, música ou artes plásticas, que configurasse, desse vida e representatividade a tal conceito. Até a estréia de Teresa e o Aquário, baseada num conto de Luciano Mattuela, com direção de João Ricardo, agora pós-modernamente auto-intitulado João de Ricardo. Mas deixemos de lado a inutilidade da partícula de ligação e voltemos à obra do jovem encenador.

João Ricardo - foi assim que o conheci e é assim que o tratarei até a morte - foi no início de sua carreira aquilo que os franceses chamam de "enfant terrible", ou seja, um inconformado com as linguagens vigentes, um pesquisador, no melhor sentido da palavra, de narrativas que agregassem meios diferentes, corporais, visuais, sonoros, abordando temas geralmente transgressores ou, pelo menos, fora das convenções usuais. Foi assim que ele dirigiu Serpente: Pulp & Nelson Rodrigues, do próprio Nelson, Shopping and Fucking, de Mark Ravenhill, Extinção, a impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo, livremente inspirado numa peça de Nicky Silver, e Andy/Edie, de Diones Camargo, seu último espetáculo antes de se mandar para Campinas para fazer o Mestrado. Dois anos depois ele está de volta e nos trás esta Teresa e o Aquário - como posso definir? - a mais concreta, orgânica e representativa experiência pós-moderna que já tive a oportunidade e o prazer de assistir nesta minha já longa vida pós-bonde e pós-máquinas Remington.

Pós-modernismo, pelo menos para mim, sempre se aproximou mais de uma negação do que de uma afirmação com identidade própria. Ou seja, ser pós-moderno era não ser isto ou aquilo, o que o espetáculo de João Ricardo vem negar. Ou polemizar. Ou contestar. Não importa. O que importa é que o espetáculo existe, tem forma e conteúdo, se fundamenta num princípio de fusão de linguagens, embora mantendo o pés na terra do referencial dramático. Mesmo que pós-dramático. Deu pra entender?

Em Teresa e o Aquário não há narrativa contínua, ou seja, não há uma história sendo contada, começo-meio-fim, causa e conseqüência, essas coisas, mas na medida em que os recursos de linguagem avançam - ator, gesto, movimento, espaço, palavra, corpo, vídeo, foto, cinema, música, som, luz - os signos vão adquirindo sentido e, automaticamente, você, espectador, vai formando na sua cabeça uma história, a sua história, talvez até diferente da que está sendo formada na cabeça do cara que está a seu lado, mas que, no fim de contas, tece o desenvolvimento narrativo. E aqui, então, as coisas se fundem. Relato, estética, política, psicologia, comportamentos, emoções, valores, códigos, tabus, tudo vai se ligando na medida em que o jogo das linguagens vai avançando, acelerando, os silêncios vão se impondo, as formas vão se contrapondo. Afinal, não seria o pós-moderno aquilo que apresenta o inapresentável? No espetáculo de João Ricardo são as formas que nos sugerem os sentidos, criam o elo de ligação entre sujeito e vontade, vontade e emoção, emoção e razão, razão e certeza, certeza e possibilidade.

Como todos nós sabemos, teatro é uma arte coletiva. E o coletivo em Teresa e o Aquário é a soma de individualidades poderosas: Sissi Venturin e Lisandro Belotto, os atores, no melhor de suas carreiras; Diones Camargo na dramaturgia; multimídia de Bruno Gularte Barreto; iluminação de Liliane Vieira e música de Roger Canal.

Última cena: a platéia. A do Theatro São Pedro, na noite da estréia, não era necessariamente uma platéia de teatro, muito menos de um tipo de teatro, teatro-arte, teatro-pesquisa, teatro-porrada, teatro-transgressão. Havia o fato de ser o resultado de mais um Prêmio Habitasul de adaptações literárias, havia um desfile de modas antes da apresentação, essas coisas. Pois às dez da noite começou o espetáculo. E durante duas horas o silêncio que se impôs era desconcertantemente eloqüente. Era comovente. Ao final, aplausos, sinceros e insistentes. O recado estava dado. Cada um havia entendido alguma coisa. E todo mundo estava emocionado. Valeu, João de Ricardo.

Para ler outros trechos de críticas sobre este espetáculo publicadas na imprensa, CLIQUE AQUI.



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