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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

OverDrama entrevista Elza Soares



De menina pobre a "Cantora do Milênio"

 

Dando continuidade à ÚLTIMA TEMPORADA na rádio Mínima fm, o OverDrama apresenta HOJE uma entrevista exclusiva com a magnífica Elza Soares, uma das maiores intérpretes do Brasil.

Eleita a "Voz do Milênio" pela rede BBC de Londres, a cantora falou sobre o seu primeiro encontro com Lupicínio Rodrigues (compositor de seu primeiro sucesso da carreira e inspiração para o seu show atual), a importância da luta incessante contra qualquer tipo de preconceito, o papel da mulher no Samba e as representações de sua vida no cinema e nos palcos brasileiros.

Terça (16/12), ao vivo, às 18h, na www.minima.fm | Reprise sábado (20/12).


OVERDRAMA - todas as cores!

Com Diones Camargo e Sofia Ferreira 






segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

OverDrama entrevista Rebekka Kricheldorf


Episódio especial gravado durante debate realizado no auditório do Instituto Goethe em julho deste ano, "OverDrama|turgias Contemporâneas – reflexões sobre o texto teatral" ("Gegenwärtige OverDrama|turgies Reflexionen über den Theatertext") trouxe a Porto Alegre a dramaturga alemã Rebekka Kricheldorf, autora de A Coisa No Mar, texto escolhido na 5ª edição do Concurso para Novos Diretores de Teatro, promovido pelo Goethe-Institut e a Secretaria Municipal da Cultura POA, em 2013. Mediado pelo dramaturgo e apresentador Diones Camargo, o evento contou com a participação da diretora Camila Bauer e do ator Fernando Zugno, além da contribuição da plateia presente.

Para ouvir o debate na íntegra, CLIQUE AQUI:


https://soundcloud.com/overdrama-m-nima-fm/overdrama-aquele-com-a-dramaturga-rebekka-kricheldor
Camila Bauer, Fernando Zugno e Rebekka Kricheldorf | Mediação: Diones Camargo



SOBRE A AUTORA:

Nascida em Freiburg (1974), Rebekka estudou Letras (Línguas Latinas) e Escrita Cênica em Berlim e é autora de diversas peças de teatro. Atualmente integra a comissão julgadora do Prêmio de Drama do Teatro de Osnabrück. A peça A Coisa no Mar foi encenada pela primeira vez em Kassel. A primeira montagem no Brasil estreou no dia 18 de julho de 2014, com direção de Jessica Lusia.

Para uma breve biografia da autora, clique AQUI.


Rebekka Kricheldorf



SOBRE O PROGRAMA:

OverDrama é um programa semanal da rádio web Mínima.fm, que aborda notícias e novidades do teatro, cinema, literatura e outras artes. Produzido pelo dramaturgo Diones Camargo e apresentado por ele em parceria com a atriz Sofia Ferreira.

Para acessar a página oficial do programa, clique AQUI.



SOBRE O EVENTO:

O evento OverDrama|turgias Contemporâneas – reflexões sobre o texto teatral surgiu de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura, Coordenação de Artes Cênicas, o Festival de Teatro Porto Alegre em Cena, o Goethe-Institut Porto Alegre, OverDrama e a Rádio Mínima FM.

Para ler um resumo sobre o debate, clique AQUI.


O público acompanhou o evento com tradução simultânea.



sábado, 6 de dezembro de 2014

OverDrama entrevista Nicette Bruno



Daqui a pouco, às 18h, na reprise do OverDrama - Mínima FM dessa semana, uma entrevista exclusiva com a atriz Nicette Bruno, que foi ao estúdio falar sobre sua nova peça "Perdas e Ganhos", dirigida por sua filha, Beth Goulart, que também assina a adaptação. Baseado nos textos da escritora Lya Luft, o solo teve estreia nacional na semana passada no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. A seguir, fará temporadas em Curitiba, Campinas e Rio de Janeiro. 

Numa conversa descontraída, Nicette contou aos apresentadores Diones Camargo e Sofia Ferreira sobre alguns momentos importantes de sua carreira no teatro, na TV e no cinema, o trabalho com o diretor polonês Zbigniew Ziembiński na primeira montagem de "Anjo Negro", de Nelson Rodrigues, a morte recente de seu marido, Paulo Goulart, e volta aos palcos como parte importante da superação da perda.

HOJE, às 18h, na Mínima FM.

CLIQUE E OUÇA AQUI: www.minima.fm



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Sobre a proposição do coletivo de dramaturgos [Temporário 6] no Galpão Cine Horto 2014, em BH



"Porque às vezes as coisas não precisam de respostas, elas precisam de silêncio." 




No último domingo à noite (22/09), em Belo Horizonte, participei de uma ação incrível ao lado dos meus corajosos amigos e colegas dramaturgos que fazem parte do coletivo [ Temporário 6 ] - André Felipe, Diogo Liberano, Gustavo Colombini, Lígia Souza Oliveira e Vinícius Souza: sequestramos o tempo no Cenas Curtas do Galpão Cine Horto – tradicional mostra que tem como regra principal apresentar cenas de até 15 minutos. Inspirados por um infortúnio ocorrido horas antes, nossa intenção foi a de fazer o tempo parar de alguma maneira para que assim conseguíssemos dar conta da avalanche de pensamentos e sensações que havia nos imobilizado parte do dia. Apesar do tipo de sensibilidade e cognição expandidas sempre se instaurar quando estamos juntos, dessa vez tínhamos o compromisso de compartilhar o resultado desse encontro com o público da mostra, coisa que nossas ações anteriores (CEP, as residências artísticas, as escritas de impressões em lugares públicos, etc.) não objetivavam. 

Sob o título de A ESTRUTURA DOS INTERVALOS DE TEMPO ENTRE AS VIRGULAS DO TEXTO QUE EU NUNCA ESCREVI e partindo da premissa de criar um “um acontecimento, um crocodilo, uma estrutura, um imprevisto, um motim, um treco”, cada um de nós se dedicou a fazer/escrever algo para lidar com o medo que se abateu sobre nossas cabeças (e braços e pernas e olhos e bocas e entranhas). E assim, juntos, lutamos para deter – ao menos por um breve instante – a força inexorável de Cronos, cujo apetite bestial devora a tudo e a todos. Nossa tentativa (pois desde o início sabíamos que – numa batalha desproporcional como essa – o máximo que se consegue é tentar) era mostrar que o Tempo, assim como pode ser entendido como realidade objetiva ou como uma divindade cruel, também pode ser entendido como espaço compartilhado, onde impera a abstração e o acordo recíproco. 




E nesse sentido, creio, atingimos o nosso objetivo (leia as críticas publicadas clicando AQUI e AQUI), pois apesar de algumas manifestações contrárias e exaltadas próximo ao final da nossa ação, o que me resta agora é a lembrança de todos nós, os seis dramaturgos e o público, frente a frente, em silêncio, se olhando – silêncio de troca, de reconhecimento mútuo. E, tal como escreveu certa vez Virginia Woolf, “[...] é provável que, quando as pessoas falam alto, os eus (dos quais pode haver mais de dois mil) tenham consciência de sua divisão e procurem se comunicar, mas, quando a comunicação é estabelecida, ficam em silêncio.” 

Obrigado, meus amigos. E obrigado a todos que se fizeram presente naquela noite.


 CEP - primeira ação do coletivo [Temporário 6 ] 

domingo, 13 de julho de 2014

OverDrama|turgias contemporâneas - reflexões sobre o texto teatral

Brasil e Alemanha entram em campo mais uma vez. Mas agora o assunto é outro.




/ OverDrama|turgias Contemporâneas – reflexões sobre o texto teatral /
Gegenwärtige OverDrama|turgies  Reflexionen über den Theatertext /

Na terça-feira, 15 de julho, no Auditório do Instituto Goethe acontecerá um bate-papo com a dramaturga alemã Rebekka Kricheldorf, autora de A Coisa do Mar, texto alemão escolhido na 5ª edição do Concurso para Novos Diretores de Teatro, promovido pelo Goethe-Institut e a Secretaria Municipal da Cultura da Prefeitura de Porto Alegre em 2013 e que terá sua estréia em 18 de julho. 

 Rebekka, nasceu em Freiburg (1974), estudou Letras (Línguas Latinas) e Escrita Cênica em Berlim e é autora de diversas peças de teatro. Atualmente integra a comissão julgadora do Prêmio de Drama do Teatro de Osnabrück. Participam também deste bate-papo a diretora teatral Camila Bauer e o ator Fernando Zugno. 

 O encontro será mediado pelo dramaturgo Diones Camargo, apresentador do OverDrama, programa semanal da rádio online Mínima.fm, que aborda notícias e novidades do teatro, cinema, literatura e outras artes. Este evento é uma parceria da Secretaria Municipal de Cultura, Coordenação de Artes Cênicas, Festival de Teatro Porto Alegre em Cena e Goethe-Institut Porto Alegre. 


SERVIÇO 

OverDrama|turgias Contemporâneas – reflexões sobre o texto teatral 

Debate com Rebekka Kricheldorf, Camila Bauer e Fernando Zugno | mediação: Diones Camargo

Dia 15 de julho, às 20h 

Tradução simultânea 

Auditório do Goethe - Institut | Rua 24 de Outubro, 112
+55 51 21187800 | programm@portoalegre.goethe.org

ENTRADA FRANCA


Gegenwärtige OverDrama|turgies Reflexionen über den Theatertext 

Gespräch mit Rebekka Kricheldorf, Camila Bauer und Fernando Zugno | mediator: Diones Camargo

Am 15. Juli 2014, um 20 uhr

Portugiesisch / Deutsch

Uhr Auditorium des Goethe - Instituts | 24 de Outubro, 112
+55 51 21187800 | programm@portoalegre.goethe.org

EINTRITT FREI



sábado, 12 de julho de 2014

Crítica "FRAMES"

Lugares para a incerteza, por Henrique Vertchenko*

CONSIDERAÇÕES POSSÍVEIS SOBRE OS TEXTOS APRESENTADOS NA ABERTURA DA III JANELA DE DRAMATURGIA

 

* crítica publicada originalmente no blog Janela de Dramaturgia. Para ler o texto na íntegra, CLIQUE AQUI.

Em seu livro Crítica e Crise[1]o historiador alemão Reinhart Koselleck diz:

Pertence à natureza da crise que uma decisão esteja pendente mas ainda não tenha sido tomada. Também reside em sua natureza que a decisão a ser tomada permaneça em aberto. Portanto, a insegurança geral de uma situação crítica é atravessada pela certeza de que, sem que se saiba ao certo quando ou como, o fim do estado crítico se aproxima. (…) A crise invoca a pergunta ao futuro histórico.
Sendo assim, a crise ou o estado crítico evoca a instabilidade e a imprevisibilidade. No entanto, ela encerra em seu horizonte de expectativa a solução e o fim desse estado de incerteza. Tomando a liberdade de considerar tal perspectiva em relação ao campo artístico – mais especificamente à dramaturgia contemporânea -, nos deparamos com obras cujos caminhos e descaminhos, cujas montagens e desmontagens as colocam em um estado privilegiado de incerteza. Por esse motivo, a própria crítica da obra se vê desestabilizada, já que pode ser uma possível inutilidade a tarefa de se “colocar em crise” obras já assumidas em sua crise.

Os textos lidos na abertura do “III Janela de Dramaturgia” – O Narrador, de Diogo Liberano, e Frames – um  ensaio para R. W. Fassbinder, de Diones Camargo – caminham, cada um a sua maneira, nessa direção de incerteza ao colocarem em crise o estatuto de verdade por meio de constantes dissoluções de fronteiras. Assim, são borrados, por exemplo, os limites entre ficção e realidade e os limites internos à própria realidade da ficção. E é essa radical incompletude de sentidos (sejam eles estruturais ou temáticos), que, como em um jogo de espelhos, se multiplica ainda pelas interpretações e olhares dos diversos sujeitos envolvidos no ato da leitura. São estruturas que não encerram sentidos unívocos, mas cuja própria flexibilidade evidencia um esforço dos autores em promover deslocamentos na comunidade de ouvintes valendo-se da artesania da palavra como vetor desses deslocamentos.

Posto isso, obras cuja natureza já é o estado crítico propiciado pela sua abertura de sentidos, podem postergar eternamente o desejo pelo fim do estado crítico. Nesse sentido, a escritura da crítica – ao buscar os vestígios e as reminiscências talvez nas coisas narradas, nos cortes dramáticos ou nos diálogos lacônicos – se junta à obra para, como em um salão de espelhos de reflexos distorcidos, manterem a incerteza no horizonte de perguntas ao futuro histórico.

(...) 

QUADROS INCERTOS ou NARRATIVAS EM ABISMO

Logo no princípio do texto “FRAMES – um ensaio para R. W. Fassbinder”, de Diones Camargo, temos:

GARÇONETE: Mais uma noite. Outra chance pra repetir tudo de um jeito diferente. Este será o espaço para que todos se mostrem como realmente são. Mas, afinal, o que nós somos? Eu sou um atriz, vocês o público, dirão alguns. Mas será mesmo? Quem está representando, afinal? Eu, aqui, dizendo essas palavras que não são minhas, ou vocês, sentados lado a lado, com a mão pousada no braço do companheiro, mas com a cabeça aprisionada em outro lugar – um lugar mais quente e mais vivo, talvez? (…)

E a garçonete ainda diz:

(…) o que acontecer aqui dentro hoje não passará de um fragmento da alucinação coletiva a que somos obrigados a enfrentar dia após dia; pedacinhos do grande filme que – ao contrário do que acreditam alguns – não será exibido nos últimos momentos da sua vida, mas que permanecerão caídos na sala de montagem até que alguém venha e varra tudo pra debaixo do tapete do esquecimento.

Este é o momento em que somos alertados sobre o que virá a seguir e sobre a forma em que se assenta a estrutura do texto de Diones. As ideias de verdade e representação são mais do que questionadas, são bombardeada, e os lugares já normalmente codificados de ator, personagem e público são continuamente deslocados, assim como o espaço e sentido das ações representadas. Se no texto de Diogo Liberano borram-se as fronteiras entre ficção e realidade, aqui são esfacelados os limites internos à realidade da ficção. O estatuto da verdade e da verdade ficcional estabelecidos usualmente por um pacto são colocados em crise por meio de sentidos que não se completam e de constantes “rasteiras” na percepção e na interpretação.

O que se tem é um set de cinema ou emissora de TV, com seus filmes e programas sobre celebridades e telejornais sarcásticos, onde as relações pessoais se confundem com as do filme ou programa que estão gravando. Por meio de cortes bruscos nas cenas – que nos remetem à edição cinematográfica -, sucessões, sobreposições e acúmulos de cenas, personagens e situações, somos conduzidos a uma atmosfera delirante e fragmentada de sonhos, que por vezes nos lembra filmes de David Lynch. O espaço então se configura como um lugar aprisionador, onde se perdem as noções de espaço e tempo (como em um sonho), em que os personagens entram e saem, surgem e desaparecem, como pelas portas de um salão de espelhos. Se estabelece um jogo em que todos atuam mesmo sem ter consciência disso.

As referências à obra do cineasta alemão, Rainer Werner Fassbinder, são sutis e podem revelar, como indica o próprio título, “um ensaio para”, uma homenagem que se vale mais de referências ou influências pessoais do que de referências diretas. No entanto, podemos encontrar alguns vestígios do diretor alemão no fracasso das relações, muitas vezes em situações corriqueiras, nos saltos absurdos em diálogos mais ou menos cotidianos, nas interrupções e lapsos temporais e na insinuação homossexual.

Em “Frames”, filmagem, ensaio e vida pessoal se confundem em uma constante instabilidade, evocando narrativas dentro de narrativas, como “mise en abyme” distorcidos ou em um salão de espelhos. Os próprios papéis se confundem, como um “Não ator” que é um escritor chamado para atuar por um assistente de direção. Se alternam cenas desse personagem sendo procurado para atuar e se relacionando com outros personagens, como a esposa, a amante e a analista. Suas sessões no analista podem ser uma representação irônica da própria ideia de autor, aquele que não consegue manter a clareza das ideias e é incitado a escrever em meio ao caos. No entanto, nunca é seguro dizer se as suas situações são lapsos de memória, momentos no instante do ocorrido ou a gravação das cenas do papel que querem que ele faça.

Há também momentos de efeito cômico provocados por situações absurdas, como alguém que vai parar em uma gravação por acaso:

B: O que você está fazendo?
A: Ora, que pergunta idiota.
B: Por que idiota?!
A: Porque aqui a gente só faz uma coisa. E é isso o que eu estou fazendo agora. Aliás, você também está.
B: Mas eu não estou fazendo nada!
A: Não lhe disseram?
B: Disseram o quê?
A: Antes de jogarem você de lá onde você estava não lhe disseram o que a gente faz aqui?!
B: Não.
A: Tem certeza?
B: Não… Quer dizer, sim, tenho certeza! Antes de me jogarem pra cá só ouvi isso: “é a sua vez de entrar! MERDA!

Aqui, evidencia-se que esses personagens não tem nenhum controle sobre o que lhes acontece e não sabem ao certo o que fazem ali, assim como o ouvinte/espectador, que, propositalmente, é levado a perder-se entre ensaios, gravações e situações corriqueiras ou absurdas, fazendo com que a ideia de “vida real” seja explodida. Essa situação é levada ao ridículo e adquire seu símbolo máximo na personagem da palestrante, uma escritora sem livros publicados que dá dicas para mulheres e fala de si, sob constantes bloqueios (pessoais e da possível narrativa), e fala do “amor e suas contradições” e de suas desilusões amorosas. São discursos da futilidade que levam ao paroxismo a vida pessoal publicizada.

Dessa maneira, Diones Camargo, reunindo fragmentos e excertos que ficaram de fora de outros textos seus, apresenta uma dramaturgia sofisticada que se questiona, se ironiza e rompe constantemente os limiares das certezas. Com suas “narrativas em abismo”, a suposta verdade da própria ficção representada é constantemente desestabilizada e desconstruída. Afirma, assim, algo que muitas vezes ainda é esquecido: que a produção de sentidos, experiências e elos entre fragmentos isolados também é dever do espectador. E conclui, abrindo portas:

MESTRE DE CERIMÔNIAS: E lembrem-se: não há espaço pra verdades aqui; somos apenas máscaras e reflexos; ficções, nada mais do que isso. Pequenas luzes espalhadas numa enorme cidade imaginária desenhada pelo autor, vivendo dentro e fora dele ao mesmo tempo. Então, ao sairmos desta sala, eu espero que vocês transformem a cidade lá fora num enorme palco para que cada um de nós atue na vida da forma mais irreal possível. Não há nada além do que está escondido.

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[1] KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Tradução de Luciana Villas-Boas Castelo-Branco. Rio de Janeiro: EDUERJ: Contraponto, 1999.
[2] BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. 


Henrique Vertchenko é mestrando do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na linha de pesquisa História e culturas políticas. Licenciado em história pela mesma universidade, é atualmente pesquisador estudante do grupo de pesquisa “Projeto Brasiliana: escritos e leituras da nação”, dando ênfase a história, teatro e crítica teatral. Também é ator formado pelo Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado (CEFAR/ Palácio das Artes), tendo feito a direção e a dramaturgia do espetáculo “Pas de deux para 2 mulheres” e a assistência de direção e a trilha sonora do espetáculo “…E peça que nos perdoe”.

domingo, 27 de abril de 2014

"Frames" será lançada hoje em Belo Horizonte (MG)

FRAMES – um ensaio para R. W. Fassbinder


Um set de cinema. Nele, quatro personagens – um ator, uma atriz, um diretor e uma assistente – se cruzam constantemente, revelando aos poucos facetas de suas relações pessoais e do filme que estão rodando – uma obra cujas narrativas ficcionais se confundem com os dramas vividos durante o próprio processo de filmagem: o choque de um roteirista ao se deparar com seu apartamento totalmente destruído e seus escritos incinerados se mistura com a perplexidade de dois atores que se encontram em uma peça sem final e sem necessidade dramática perceptível; a amargura de um roteirista tentando conciliar sua vida íntima, decisões familiares e seu trabalho, em meio a uma crise de bloqueio criativo, encontra ecos na vida de uma garçonete que busca alívio momentâneo verbalizando suas frustrações paras as mesas vazias do bar em que atende, como numa audição para uma plateia inexistente. Essas são algumas das histórias que se enredam num jogo onde o real e o ficcional já não fazem diferença, mas servem apenas para reafirmar a insensatez que impera no cotidiano de todos.




APRESENTAÇÃO, 
por Diones Camargo


O cinema é a verdade  24 quadros por segundo.
Jean-Luc Godard


Na época do surgimento do cinema – mais precisamente a partir do advento dos filmes falados – o texto teatral serviu de base para muitas películas daquele período devido à sua óbvia característica de ser massivamente verbal. Porém, após poucas décadas, a chamada “sétima arte” se aperfeiçoou de tal maneira que acabou se tornando, ela própria, uma das propositoras mais eficazes para as outras artes narrativas, influenciando tanto a cena teatral quanto expandindo suas possibilidades dramáticas tradicionais. Atualmente, o cinema ainda busca nos avanços da linguagem dos palcos particularidades que o permitam fugir ao realismo quase onipresente nas telas. Da mesma maneira, o teatro ainda procura no cinema algumas soluções narrativas que tirem o espetáculo do patamar desgastado da mera significação racional, alçando-o a uma camada mais sensorial, intuitiva e, por vezes, delirantemente visual. A tal chama que clamava Antonin Artaud em seus escritos encontra hoje, na interação entre essas duas linguagens, a combinação ideal para incendiar a imaginação das plateias.

No que se refere aos meus textos para teatro, o cinema sempre teve uma importância fundamental, não apenas pelas soluções dinâmicas para transições de cenas, por exemplo, como também pela construção de tensão dramática a partir rápidas inserções de fragmentos e informações, chegando até mesmo à utilização de leitmotivs comuns à arte cinematográfica, (como é o caso de “Último Andar”, uma das minhas peças ainda inéditas, uma homenagem aos filmes de ficção científica que eu assistia na infância, principalmente a “Blade Runner - o Caçador de Androides”, de Ridley Scott). Mas essa influência da narrativa fílmica não termina aí. Em obras como 9 Mentiras Sobre a Verdade e Hotel Fuck – Num Dia Quente a Maionese Pode Te Matar, o cinema – seu imaginário e características formais – se manifesta não apenas na fragmentação, na metalinguagem e na visualidade exacerbada, mas principalmente através da utilização de personagens que, inseridos nesse contexto, reforçam essas características e remetem a esse universo em seus próprios discursos e vivências. Nessas peças, a ficção do cinema (esse jogo ilusório, do qual o teatro é igualmente pródigo) é emulada no palco além de mero recurso formal: ela é a realidade dos seus personagens; faz parte do cotidiano daquelas pessoas às voltas com as filmagens de um filme B, por exemplo, ou na mente de uma figurante que sonha em um dia alcançar o protagonismo; é o seu habitat e também a metáfora dos seus desejos de realização pessoal.

Agora, a convite do Janela de Dramaturgia, decidi voltar a esse universo, porém de uma maneira totalmente nova: a partir de excertos dramáticos que ficaram de fora de algumas das minhas peças anteriores, ou que serviram aos seus processos apenas como exercício de escrita, além de esboços para a minha nova peça, resolvi reunir esses fragmentos de modo a estabelecer elos que antes estavam escondidos ou foram ignorados numa primeira leitura. Aqui, as cenas agrupadas falam o tempo todo sobre cinema, mas antes de apresentarem uma narrativa que se vale de uma unidade para, então, remeter ao esfacelamento, Frames – um ensaio para R. W. Fassbinder faz o contrário: nesse trabalho, parto das diferenças (que originaram cada trabalho) e vou em busca de uma unidade conceitual, com seus encaixes que unam as sobreposições, os seus contrastes e até mesmo suas contradições. Assim, trechos que aparentemente não têm qualquer sentido, funcionam como um sonho onde as simbologias se conectam e se ativam pelo acúmulo e não pelas suas características isoladas.  

Esse tipo de desafio é, acima de tudo, uma oportunidade de expandir a minha pesquisa de escrita dramática. E isso por três motivos confluentes: primeiro porque, desde que comecei a escrever para teatro, evitei ao máximo as chamadas “colagens” – algo muito comum numa cultura com fraca tradição e formação de dramaturgos como a nossa. Tinha receio de cair nas facilidades e armadilhas dessa técnica que, quando mal utilizada, pode afastar até o mais entusiasmado dos leitores/espectadores. No entanto, minha intenção agora é justamente essa: partir desses episódios e encontrar neles uma coesão que os torne maiores do que são isoladamente, como um alfabeto novo formando frases inesperadas; em segundo lugar porque, por se tratar de um experimento dramático, posso me valer do conhecimento acumulado durante quase 10 anos de prática contínua de escrita e pôr em prática o que aprendi não apenas na arquitetura de textos teatrais, mas também na construção de dois roteiros para cinema (entre eles um longa-metragem que está prestes a ser filmado); por último, pelo motivo que considero o principal de todos: porque atualmente estou às voltas com um personagem que é, ele mesmo, parte vital próprio do cinema: o diretor, roteirista, produtor, ator e dramaturgo alemão Rainer Werner Fassbinder, cuja biografia estou na incumbência de levar aos palcos ao lado de uma companhia de Porto Alegre. Diferente das outras biografias com as quais já trabalhei (Andy Warhol e Bob Dylan em Andy/Edie, e Nelson Rodrigues e Cacilda Becker em Os Plagiários – Uma Adulteração Ficcional Sobre Nelson Rodrigues) nesse novo trabalho a intenção será diluir os acontecimentos da vida desse prolífico cineasta em sua vasta obra, mostrando-o através de seus personagens, que são – como não poderia deixar de ser – reflexos de suas pulsões e características mais íntimas. Uma obra na qual valerá, mais que a (falsa) ordenação da “individualidade”, o caos da multiplicidade. Assim, a personalidade de Fassbinder será vista, principalmente, espelhadas nas geniais figuras criadas por ele, com num grande mosaico do artista genial e homem obsessivo que ele sempre foi. O criador e suas criaturas, sem definirmos quando termina um e começa(m) o(s) outro(s).

Aliás, é exatamente isso o que tentei aqui. A revelação de algo inesperado através do consciente entrelaçamento entre realidade e ficção, sonho e imaginação, sem estabelecer distinção clara entre eles.


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