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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O FEIO: quando Eu é um Outro

por Diones Camargo* 




(texto publicado originalmente no programa da peça, por ocasião do projeto de circulação 2014) 


Existe um célebre texto do dramaturgo norte-americano John Guare no qual, lá pelas tantas, durante um jantar, a protagonista lança aos convidados (e, por extensão, a si mesma) a seguinte questão: “Como conservamos uma experiência?”. É uma pergunta existencial, é claro, e faz todo sentido dentro daquela narrativa, mas para mim – em parte por causa do meu ofício – ela volta constantemente como um impasse insolúvel: como narrar uma experiência relevante sem diminuí-la a uma simples anedota? É o que me ocorre agora quando penso sobre o que escrever a respeito dessa premiada montagem de O Feio, levada aos palcos pela Ato Cia. Cênica. 

Na noite em que a assisti pela primeira vez, acomodado na plateia de um teatro qualquer, eu – observador acostumado às casualidades exaustivamente ensaiadas da cena – me via preparado a analisar a peça de um ponto de vista racional, discursivo e até mesmo distanciado, já que o seu autor é um alemão verborrágico que esteve em cartaz no Brasil pelo menos meia dúzia de vezes. Porém, nunca imaginei que lá pelas tantas minha vontade seria a de levantar da poltrona, caminhar até o palco e – tomado pela “segunda natureza” da qual o grande Marlon Brando falou certa vez – começar a improvisar e a jogar com os atores em cena. Esse, para mim, é o principal mérito desse trabalho que alcança agora, através do Prêmio Myriam Muniz de Circulação, novos públicos em capitais tão diversas como Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. 


Com direção de Mirah Laline, O Feio foi um dos destaques de 2012 


Dirigido brilhantemente pela jovem encenadora Mirah Laline, O Feio (Der Hässliche, no original) é desses espetáculos que te capturam logo nas primeiras cenas e te arrastam por uma corrente de sensações vertiginosas que não podem ser traduzidas somente através das palavras, pois apesar de ser uma adaptação fiel da peça homônima escrita pelo dramaturgo Marius Von Mayenburg, a direção concentra sua força não nas peripécias descritas nas páginas, mas no potencial de encenação que o texto desperta – potencial esse que é cuidadosamente aproveitado em marcações exatas, milimetricamente executadas, como um bisturi comandado por um robô. Aliás, o caráter neotecnicista é um leitmotiv que percorre a montagem e a ordena de modo frio e equilibrado tal qual um programa de computador. Seja na metáfora presente na trama e destacada pelos diálogos mordazes, seja na atmosfera da cena expandida até seu limite através de recursos audiovisuais – tais como projeções que exploram o grotesco da situação (estranhamente verossímil, por sinal), a atordoante trilha composta por uma mistura de Metal Industrial e sonoridades de circuitos em pane, ou as referências às artes visuais e performáticas que ganham a cena em cores berrantes e linhas pontilhadas que demarcam o espaço – podendo ser tanto o espaço objetivo do tablado, quanto o simbólico do corpo dilacerado pela navalha –, enfim, tudo se encaixa harmoniosamente, como num procedimento cirúrgico bem-sucedido. Um dentre tantos presentes no nosso admirável mundo novo. 




Mas apesar de todas essas qualidades, é o elenco afiado e extremamente bem conduzido que nos permite simpatizar com personagens tão ambíguos e, através dele, sentir o peso da angústia que os dilacera. Apoiada no jogo intenso entre os seus intérpretes, a peça ganha contornos de alucinação cada vez que novos desdobramentos são despejados no tabuleiro, obrigando-os a reordenar o que já está quase se tonando cotidiano pra nós. Através das ironias e dos sentidos ocultos das palavras somos levados a experimentar a lógica insana, cruel e massacrante que conduz o protagonista desde sua total falta de carisma à sua irremediável perdição (perdição essa que, ironicamente, é menos dele do que a tal falta com a qual iniciou sua jornada – pois a feiura, ao menos, lhe era inerente e, por isso mesmo, única). Através de uma fisicalidade precisa e estudada, os atores parecem estar o tempo inteiro sendo sugados pela espiral de acontecimentos da qual nós, espectadores, partilhamos e para a qual somos arrastados também. E assim como Lette, o tragicômico anti-herói da narrativa, somos libertados apenas quando, enfim, aceitamos que não há mais saída. E é aí que reside o terror dessa sombria comédia do nosso tempo: tal qual um enorme espelho forjado através dos séculos e que hoje chega até nós por meio da cultura de exploração de ícones reproduzidos pela massa, o que vemos em cena é a experiência da luta de uma civilização que não somente já dá sinais de cansaço, mas, principalmente, de desespero coletivo. 


Apoiada em atuações intensas, a peça ganha contornos de alucinação


No fim, saímos do teatro com a certeza de que se o Ego nos diz que podemos ser tudo o que desejamos, bastando equilibrar com aquilo que os outros desejam de nós, a vaidade – este reflexo distorcido de Narciso –, por outro lado, nos põe contra nós mesmos e nos obriga a matar aquilo que temos de mais autêntico: as nossas paixões. Quaisquer que sejam elas, estamos fadados a perdê-las em prol de uma máquina social que vê no indivíduo – suas contradições e maravilhas – não uma possibilidade revolucionária, mas um mal que deve ser combatido em prol da coletividade, da ordem e do ainda tão alardeado progresso a qualquer custo. 


* Diones Camargo é dramaturgo e escritor. Graduado em Teatro pela UFRGS, é autor das peças Andy/Edie, Parque de Diversões, Último Andar, 9 Mentiras Sobre a Verdade, Teresa e o Aquário, Hotel Fuck, Os Plagiários - uma adulteração ficcional sobre Nelson Rodrigues e O Tempo Sem Ponteiros; roteirista do longa-metragem A Colmeia e co-roteirista do curta-metragem O Último Dia Antes de Zanzibar.




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