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sábado, 26 de setembro de 2015

Krum, o que nunca aprende (versão completa)

por Diones Camargo*


"Krum", da Cia. Brasileira de Teatro, foi um dos destaques do 22º Poa Em Cena


(*crítica publicada originalmente, em versão parcial, na ZH ClicRBS, em 20/09/2015)


O romancista e dramaturgo russo Maximo Gorki afirmou em um dos seus livros que há duas razões primordiais para alguém se tornar escritor: ter vivido tantas experiências que se faz urgente compartilhá-las ou ter vivido tão pouco que se torna necessário inventar uma vida substituta. No caso de Krum, personagem da peça homônima apresentada pela Companhia Brasileira de Teatro na programação do 22º Porto Alegre Em Cena, nenhuma dessas motivações parece boa o suficiente: se por um lado a sua primeira e tão desejada viagem ao exterior só o fez retornar exatamente como saiu – vazio e ignorante –, por outro, a sua reacomodação na existência medíocre e tediosa de um subúrbio não lhe desperta qualquer ímpeto de reinvenção do cotidiano através da imaginação. 

 Quando a história inicia, ele está nesse ponto – um ponto morto em que não é nem mais alguém tão insignificante (sua viagem o coloca sob os olhares curiosos dos amigos e vizinhos), mas também está longe de ser alguém especial. Cercado por pessoas igualmente desesperançadas e impotentes, o que acompanhamos durante as quase duas horas de espetáculo é a total inércia do ser humano. Tal como as três irmãs da peça de outro escritor russo – também elas presas num mesmo lugar com várias pessoas, todas sonhando com a fuga para um lugar idealizado –, os personagens aqui veem o tempo passar fazendo questionamentos infrutíferos sobre o melhor horário pra praticar exercícios físicos, o tipo ideal de parceiro para se casar, o que se trouxe como souvenir de uma viagem, e tantas outras inutilidades que não vão lhes servir pra absolutamente nada, pois não há nada esperando por eles. 

Mas se em Tchekhov a sensação de imobilidade se impõe pelo artifício de omitir os pontos de virada da peça, nesse texto do israelense Hanoch Levin vemos cada um desses momentos espalhados sistematicamente em cena: acontecimentos importantes que poderiam se tornar marcos na vida de qualquer pessoa, mas que passam através deles sem “se deter o olhar”. Amores, traições, ofensas, rupturas, casamentos, humilhações, mortes, nada parece ser forte o suficiente para fazer com que os personagens mudem de direção. E nada parece ser suficientemente bom para que Krum escreva a respeito. E assim, entre evocações de um passado ruim mas ainda melhor do que o presente medíocre, acompanhamos esses sujeitos que preferem desviar o olhar para uma tela de TV ou de cinema a ter que encarar a imensidão do mar ou o que resta da luz do Sol no fim de um dia que prometia tanto, mas que por imprevistos da existência terminou quando mal começava. O que ficam são duas ou três fotografias que serão guardadas na pilha das memórias perdidas até se dispersarem como cinzas sopradas ao vento. 


Crédito da foto: Ricardo Brajterman


Surgida em 1999, em Curitiba, a Companhia Brasileira de Teatro – que já esteve por aqui com as peças Vida, Oxigênio, Descartes com Lentes, Isso Te Interessa e Esta Criança – vem sendo considerada uma dos melhores e mais importantes do país. E não apenas pela constante pesquisa de uma dramaturgia própria ou por nos apresentar autores ainda inéditos por aqui, mas principalmente pelo seu elogiado elenco e pelo apuro visual de suas encenações. E a montagem atual confirma essas características. Sob a direção precisa e imaginativa de Márcio Abreu, em Krum o jogo entre os atores se mostra coeso, sem um destaque pesando para um deles apenas. Todos em cena têm uma presença marcante e um preparo técnico exemplar, mesmo aqueles que não fazem parte do elenco fixo da companhia. Ainda assim, Renata Sorrah chama a atenção por explorar bem a complexidade de sua personagem – uma mulher apaixonada por um homem que a despreza e que por isso acaba direcionando esse mesmo desprezo aos outros, inclusive àquele que a ama – e nos conduzir numa espiral de falta de amor-próprio que nos é dolorosa e impactante devido ao trabalho sensível e minucioso da atriz. Se comparado ao espetáculo Esta Criança, (primeira parceria da Companhia com Sorrah) a montagem de Krum é claramente superior por articular temas, atmosferas e distintas linguagens de interpretação de modo orgânico e não excludente, numa composição cênica que destaca o não evidente ao olhar, expandindo os significados e não apenas sublinhando os diálogos. A penumbra que nos confunde e surpreende a cada novo movimento da luz, os focos demarcados que recortam e isolam os personagens, a dinâmica de constante expansão e retração das marcações que afastam e reaproximam os atores no centro do palco, as cores e vozes misturadas que apenas sugerem o espaço ficcional da ação, sem nunca descrevê-lo. Tudo ali parece harmonioso, mesmo quando exacerbado. Aliás, a textura sonora nessa montagem tem tanta importância quanto a visualidade: o ruído estrondoso que surge de tempos em tempos parece fazer eco à escuridão absoluta da cena, como se comprovasse a existência de um abismo, um vazio, o núcleo de um buraco negro impiedoso que devora a tudo e a todos, tanto os que estão sobre o palco, quanto os que estão fora dele, até restarem apenas destroços sob hélices que giram incessante e tediosamente (numa possível referência a um contexto de guerra e suas máquinas de destruição ou, quem sabe, ao movimento circular dos personagens em volta deles mesmos). Insaciáveis, eles, no palco, buscam sentir algo através de doses exageradas de comida, bebida, sexo, festas, ou mesmo de drama barato. Todas essas distrações, tão comumente servidas a uma audiência de TV ou a uma plateia de cinema, são o que alimentam aquelas pessoas, sem nunca satisfazê-las. Não à toa, no fim, eles se unem a nós na plateia para que juntos celebremos o absurdo que é simplesmente consumir o que deveria ser, de fato, vivenciado. 


Esta Criança, de Joël Pommerat; primeira parceria da Cia. com Sorrah


E aqui a encenação parece apontar para aquela que é talvez a maior qualidade do texto: a enorme identificação do autor com os seus personagens. Pois apesar do humor reluzente dos diálogos, Levin jamais os abandona ao escárnio, mas os resgata constantemente da completa resignação, reanimando-os com doses sucessivas de esperança por entender que aquelas figuras que vemos em cena são também como ele, e que seus medos e frustrações são os de todos nós. Ao contrário de uma parte significativa das peças surgidas nas últimas décadas e que se sustentam sobre o riso para nos fazer refletir sobre as relações familiares ou sobre a sociedade, em Krum (texto escrito no início dos anos 70) o dramaturgo parece reconhecer que existe sempre uma força exterior que impele aquela gente tanto à cegueira, quanto à mesquinhez, e que ele não precisa condená-la, pois outro certamente virá e o fará – seja perguntando, em tom irônico, sobre por que alguém começa uma carreira de um jeito e termina de outro, seja insistindo em ter relações sexuais apenas para satisfazer suas compulsões mais egoístas. E é por causa dessas doses de compaixão do autor que nos sentimos conectados emocionalmente àquelas pessoas, e não apenas meros observadores distanciados e superiores, como costuma acontecer. Anos depois, tal como ocorre a um deles na peça, Hanoch Levin veio a falecer prematuramente devido a um câncer, aos 55 anos de idade. 

Assim como os outros, Krum tenta desesperadamente fugir e enxerga essa possibilidade na figura de uma mulher – antiga moradora do bairro, que retorna anos depois envolta em “perfume de países distantes”, como o protagonista mesmo se refere. Porém, se há nele um deslumbramento, nela há apenas tédio - com sua vida, com as viagens,  com os amores - e assim o rejeita, fechando-lhe a única porta que ainda resta. Relegado à sua prisão naquele terreno aparentemente estéril, o que Krum não percebe é que se ficasse atento à sua volta escreveria páginas e mais páginas apenas sobre as brigas com a mãe, a relação conturbada com a namorada, as conversas insignificantes com os amigos. Isso tudo, se reunido, daria ao menos um livro, que quem sabe o possibilitaria escapar para sempre daquele contexto que tanto odeia. Mas não. Como o próprio Krum argumenta no início e no fim da peça (numa arquitetura circular que serve menos de enfeite dramático e mais como prova da sua estagnação), ele ainda não está pronto. E, provavelmente, nunca estará.


Crédito da foto: Nana Moraes/divulgação



Última Semana pra se Inscrever na Oficina de Dramaturgia 2015




Oficina Dramaturgia Líquida - a palavra na cena

Voltada ao público em geral, esta oficina aborda os diferentes métodos de criação dramatúrgica, desde a escrita prévia de cenas e sua transposição para o palco até a escritura que se dá durante o processo criativo. A partir de exercícios de dramaturgia e composição cênica, leituras de textos teóricos e análise de peças teatrais e roteiros escritos para o cinema serão comentados os principais elementos que estruturam e organizam uma narrativa dramática. Durante os encontros, os alunos serão incentivados a desenvolverem suas próprias histórias e receberão consultoria individual durante todo o período da oficina de modo a desenvolverem material autoral que será apresentado ao público no final do semestre, proporcionando assim uma visão mais abrangente do processo criativo de um roteirista ou de um dramaturgo profissionais, desde a ideia inicial até sua execução na cena.


Conteúdo Programático:

  • Assimilação de interferências criativas no texto autoral;
  • Noções básicas de dramaturgia: começando uma história;
  • A escrita dramática: linguagem e códigos da representação visual;
  • As possibilidades narrativas no drama contemporâneo;
  • Fragmentação versus tema unificador: análise do sentido da obra;
  • A utilização das referências culturais na dramaturgia: história e evolução da escritura cênica;
  • Estratégias de compartilhamento, encenação e publicação de textos dramáticos autorais. 

  
Público Alvo:

Roteiristas, dramaturgos e escritores que se interessem pelas particularidades da escrita dramática; artistas, estudantes e praticantes de qualquer disciplina teatral que tenham interesse na criação de trabalhos inéditos para teatro.


Duração da Oficina: 

14 encontros divididos em:
  •  11 aulas;
  • 1 debate com dramaturgos convidados;
  • 1 encontro de produção (para apresentação final dos alunos);
  • 1 leitura dramática de textos produzidos pelo alunos.
Total: 40h/aula (com certificado)


Período: de 03 de outubro a 12 de dezembro 2015

Dias e Horários: sábados, das 14h às 17h

Local: Galeria La Photo | sala multiuso - Travessa da Paz, 44 - POA


Investimento: 

950 reais à vista

ou

1 entrada de 380 + 2x de 360 reais.


Inscrições: 

através do e-mail dionescamargo@yahoo.com.br


VAGAS LIMITADAS! 


Sobre o ministrante: 

Diones Camargo é dramaturgo e roteirista. Autor de Andy/Edie (Prêmio Funarte de Dramaturgia 2005), Último Andar (Prêmio Funarte de Estímulo à Dramaturgia 2007), Parque de Diversões, Teresa e o Aquário (VIII Prêmio PalcoHabitasul - Melhor Roteiro 2008), O Tempo Sem Ponteiros, 9 Mentiras Sobre a Verdade, Os Plagiários – Uma Adulteração Ficcional Sobre Nelson Rodrigues (Prêmio Açorianos de Teatro 2012 - Melhor Dramaturgia), Hotel Fuck – Num Dia Quente a Maionese Pode Te Matar, F.R.A.M.E.S. e Fassbinder – o Pior Tirano é o Amor, entre outros; é dramaturgista dos espetáculos O MAPA_, Peru, NY e Buarqueanas. Suas peças já foram encenadas pelas mais importantes companhias de teatro do RS, algumas delas também publicadas no Brasil e no exterior.

Licenciado em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, encerrou o curso com a monografia Dramaturgias Possíveis – Interferências Criativas no Texto Dramático, na qual analisa o processo de criação de cinco de suas principais peças e expõe como se dá a transposição desses processos nas suas aulas. Com esse trabalho de conclusão de curso o autor obteve a nota máxima da instituição. Seus estágios acadêmicos incluíram aulas de escrita e teatro realizadas no CDE – Centro de Desenvolvimento da Expressão POA, Projeto Pedagógico da 6ª Bienal do Mercosul (vencedor do Prêmio Cultura Viva – MinC 2007) e em escolas públicas estaduais e municipais.

Participou como aluno de oficinas ministradas pelos dramaturgos Ivo Bender (Brasil), Marco Antônio de La Parra (Chile), Samir Yazbek (Brasil), Ramón Griffero (Chile) e Mário Bortolloto (Brasil). No cinema, participou de workshop ministrado pelo dramaturgo, roteirista e diretor Ruy Guerra (Moçambique) e recebeu consultoria de roteiro do cineasta Pablo Stoll (Uruguai). Fez parte da residência artística realizada pelo grupo Odin Teatret em Porto Alegre, em 2013, com aulas ministradas pelo diretor, dramaturgo e pesquisador Eugênio Barba (Itália) e os atores da companhia. Em 2007, foi convidado a participar do programa para estudantes estrangeiros do Centro de Educação e Cultura da escola Larkkülla, na Finlândia. Em 2012, sua peça Teresa e o Aquário foi publicada em Portugal, e em 2013 seu texto Último Andar foi lançado em Havana, Cuba.

Paralelamente às atividades de escrita, o autor participa de debates, palestras e projetos ligados à pesquisa em dramaturgia e sua relação com as multilinguagens, como é o caso do S E I S dramaturgos, coletivo formado por dramaturgos de seis capitais brasileiras distintas, cujas ações recentes ocorreram nas cidades de Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Ministra regularmente a oficina Dramaturgia Líquida – Assimilação de Influências no Texto Teatral. Durante dois anos, produziu e apresentou o programa semanal OverDrama, na rádio Mínima FM, no qual falava sobre teatro, cinema e literatura. No cinema, é co-roteirista do curta-metragem Último Dia Antes de Zanzibar, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, e roteirista do longa-metragem A Colmeia (selecionado pelo prêmio RS Polo Audiovisual - FAC 2014), atualmente em fase de pré-produção e com filmagens previstas para 2016.





quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Uma Peça no Exílio: 'A Vida de Galileu'


Denise Fraga no papel de Galileu, na montagem de Cibele Forjaz.


(texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo, em 19/09/2015) 


A montagem Galileu Galilei, dirigida por Cibele Forjaz e exibida recentemente na programação do 22º Porto Alegre Em Cena, trouxe à memória os acontecimentos que marcaram a escritura desta que é uma das mais conhecidas obras do teatro alemão. 

A Vida de Galileu é uma pérola dentro da dramaturgia de Bertolt Brecht, e não apenas por nos apresentar uma panorâmica da biografia de Galileu Galilei, nome fundamental na evolução da ciência e na história da humanidade, mas também por nos proporcionar um olhar aprofundado a respeito dos dilemas que o próprio autor da peça vivenciou através das décadas. As quatro versões do texto (algumas fontes admitem somente três) servem como mapa das transformações psicológicas do dramaturgo, que viu no personagem histórico uma forma de expor o contexto político cambiante de que ambos foram reféns. 




A primeira versão da peça foi escrita em 1933, no tricentenário da condenação de Galileu, enquanto Brecht estava no exílio. Ele havia acabado de deixar a Alemanha (por pouco tempo, conforme acreditava) após Hitler ser nomeado Chanceler e o nazismo começar a ensaiar seus primeiros gestos de terror, no início daquele ano. Apesar do enorme prestígio entre público e crítica, as obras de Brecht foram queimadas e proibidas em todo país. No entanto, elas continuaram circulando clandestinamente, muitas vezes cruzando as fronteiras escondidas sob os casacos de amigos ou talhadas na memória destes. Com uma abordagem mais heroica, esta primeira versão foi – segundo o teórico francês Bernard Dort – escrita “...para servir de exemplo e de conselho aos sábios alemães tentados a abdicar seu saber nas mãos dos chefes nazistas”. E também seria um recado claro e otimista ao povo alemão, já que reafirmava através da voz de Galileu o preceito do também astrônomo Nicolau Copérnico que dizia que, apesar de tudo, “a terra se move”; em outras palavras, era uma forma de lhes lembrar, mesmo à distância, que as novas ideias iriam prevalecer, a despeito da ignorância e das trevas lançadas sobre aquela nação. 

Porém, a história nos provou (mais de uma vez, aliás) que qualquer traço de sensatez pode ser facilmente soterrado pela brutalidade e pelos gritos dos irracionais. E assim, enquanto fugia de país em país sistematicamente invadidos pelos nazistas, Brecht escreveu uma segunda versão entre os anos 1938/39. A essas versões iniciais, infelizmente, não temos acesso aqui no Brasil, apenas a resquícios bibliográficos que nos permitem entender sua progressão como escritura dramática e temática. 


Primeira montagem de "A Vida de Galileu", em Zurique (1943).

Após a estreia mundial em Zurique, em 1943, uma nova revisão começaria, agora com a colaboração do ator Charles Laughton. Iniciada em 1944 e concluída dois anos depois, a terceira versão de A Vida de Galileu foi levada aos palcos dos EUA quando Brecht estava por lá, exilado com sua família. Pouco antes, o mundo vira o Japão ser arrasado pelas duas bombas atômicas lançadas pelos norte-americanos – demonstração trágica e covarde que encerrou definitivamente a 2ª Guerra Mundial. Nesta nova versão, o que Brecht questionava nas entrelinhas era a responsabilidade do indivíduo nos acontecimentos da História. Sua visão atual era que a ação bem intencionada, porém inadvertida, dos cientistas ajudou o governo a cruzar a linha da ética, colaborando com o massacre que acabara de se ver. Para ele, qualquer horror perpetrado contra a humanidade é responsabilidade de cada indivíduo que dela faz parte. Sendo assim, não existiria herói que não esteja com as mãos sujas de sangue. Prova disso é que os próprios envolvidos na carnificina confirmariam, anos depois, tal raciocínio: enquanto o Nobel de Física, o alemão Albert Einstein, admitiria num mea culpa a um amigo a sua participação indireta no genocídio, o chamado “pai da bomba atômica”, o físico J. Robert Oppenheimer, iria expor publicamente durante uma entrevista para um documentário da rede NBC a sua culpa torturante. 

E apesar – ou por causa – do contexto recente, a peça teve uma carreira de sucesso. Mas mesmo isso não impediu que a perseguição ao autor continuasse. Pouco depois da estreia norte-americana, Bertolt foi convocado a depor no Comitê de Atividades Antiamericanas. Filiado ao Partido Comunista desde 1919, o dramaturgo mentiu de maneira irônica e quase farsesca aos seus inquisidores para escapar da condenação. Terminado o processo, foi absolvido – o único dentre onze investigados. Os outros dez não apenas se recusaram a responder às acusações, como também denunciaram o comitê por violações dos direitos civis. Foram condenados à prisão e ficaram conhecidos como The Hollywood Ten. No dia seguinte ao seu depoimento, Brecht partiria de sua infeliz e improdutiva temporada em solo ianque e voltaria à Alemanha, encerrando assim quase quinze anos de exílio. 


Brecht e seu filho Stefan Brecht.

A quarta e última revisão da peça foi concluída em 1956 para ser encenada pela primeira vez no seu país de origem, pela sua recém-fundada companhia, a Berliner Ensemble. A versão definitiva (a mesma a qual hoje temos acesso aqui no Brasil com tradução de Roberto Scharz) trazia um Galileu menos inclinado à coragem e abnegação do herói trágico e mais próximo das vicissitudes e contradições do homem comum. 

Ironicamente, tal qual Galileu que morrera sem ver seu último e mais importante livro – escrito durante os anos de exílio – ser publicado no país onde nasceu, Brecht também morreria sem ver essa derradeira versão de sua obra encenada na sua pátria mãe. Mesmo assim, seu legado para a história do teatro permaneceu, da mesma forma que permaneceu o legado do astrônomo e matemático italiano. E a prova da atualidade e pertinência das ideias de ambos é o que se pôde comprovar na belíssima montagem brasileira que há pouco vimos em cena.




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