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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Sobre Andy / Edie

A idéia de escrever a peça Andy/Edie surgiu no final de 2004 após a leitura da biografia de Andy Warhol. Determinado trecho havia despertado em mim um estranho interesse: as páginas relatavam o período entre os anos de 1962 e 1967, aproximadamente, época em que Warhol foi apresentado a Edie Sedgwick, uma garota de apenas 22 anos e herdeira de uma fortuna milionária. Pouco conhecida no Brasil, Edie foi (e ainda é) uma referência de moda e comportamento; de certo modo, um ícone do século XX.

Com seu trabalho já reconhecido pela crítica e pelos outros artistas de sua geração, Warhol estava cada vez mais interessado nas experiências cinematográficas que vinha realizando no seu famoso ateliê, a Fábrica Prateada. Ao conhecer Edie ele imediatamente encantou-se pelo seu "glamour elétrico" e convidou-a para participar de suas produções com a promessa - sempre indefinida - de torná-la uma estrela. Nessa mesma época Edie mantinha um relacionamento conturbado com o músico Bob Dylan. Compositor influente entre os jovens e intelectuais militantes de sua geração, Dylan era reconhecidamente avesso aos ideais dos artistas da POP ART e nutria um especial desprezo por Andy Warhol devido ao seu comportamento excêntrico e à sua visão de arte como objeto de consumo. Desde o início o jovem músico foi contra a relação de amizade entre Andy e Edie - o que provocou diversos boatos que hoje permeiam as páginas de suas biografias.


Foi em meio a esse duelo de dois grandes "devoradores de pessoas" que Edie repentinamente foi jogada no grande paradoxo dos anos 60: vivia-se num período onde tomar uma posição era obrigatório; uma questão de necessidade política. Escolher um dos lados significava dar um passo na grande marcha revolucionária que ansiava por liberdade em todos os cantos do mundo. Mas ao fechar-se numa opção apenas, talvez o indivíduo perceba mais claramente os limites do que se costuma chamar de liberdade.

Para Edie a escolha entre a amizade de Andy ou Dylan foi amplamente afetada pelos sentimentos os mais diversos e é a busca da compreensão destas motivações o que me interessa no desenvolvimento da peça (o abuso de drogas pesadas, que levaram-na a morte por overdose aos 28 anos, é certamente um elemento importante, mas não o principal). Concentrando-me na alegoria sugerida por estas figuras e situações reais, trabalhei visando a análise de três temas que a mim parecem cruciais para entendermos as necessidades criadoras para qualquer artista, em qualquer época: a estreita ligação entre a vaidade, a arte e a morte. O arte como possibilidade de superação da morte e como reflexo do ego de quem a faz. E, paralelamente, o sucesso e o reconhecimento como uma célula independente do trabalho criador, mas que pode estar perfeitamente ajustada ao outro.

Por nunca ter tido a intenção de recriar nos palcos os detalhes de uma biografia, os dados específicos do contexto político e histórico foram conscientemente ignorados no texto. Também não poderia ser muito diferente: a relação de poder e opressão a que Edie fora submetida por dois dos maiores artistas americanos do século passado nada tinha a ver com um tipo de identificação artística ou de uma consciência política sobre sua realidade. A necessidade do poder, o pueril encanto do estrelato, o desejo de ser reconhecido, amado e compreendido é o que leva a todos em Andy/Edie, sem exceção, a agir conforme seus mais duvidosos instintos de sobrevivência. Uma espécie de Reality Show (muito antes de surgir este conceito na mídia) onde o grande prêmio não é simplesmente dinheiro ou a fama, mas tudo aquilo que a cultura da celebridade promete como o ideal para todos: essa versão fantasiosa de nós mesmos que esconde nossos ferimentos mais profundos; o glamour que não cura a ferida, mas que a cobre com ouro em pó e utiliza nosso sangue como complemento plástico da beleza e do sacrifício.

Diones Camargo

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