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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Efeito do Tempo na Criação de uma Peça

Como eu posso explicar aquilo? Bem, creio que a pergunta deveria ser 'como falar sobre o que houve nesta manhã sem me referir ao que aconteceu antes – muito tempo antes?'. Deve haver algum jeito, eu sei... afinal de contas, era isso o que os livros de História tentavam fazer, não é mesmo? Isso quando ainda existiam livros, é claro. E, principalmente, quando ainda existia História. Mas mesmo naquela época este era o objetivo: resumir tudo num grande gráfico lógico e compreensível; traduzir toda a complexidade humana em termos simples e assimiláveis – a evolução simplificada ao máximo, a ponto de caber em um mísero bit... 'certo / errado', 'verdadeiro / falso', 'isto / aquilo'... mas e o que tem no meio? Você já se perguntou sobre isso? O que diabos existe entre uma coisa e outra?

Trecho da peça Último Andar


Em 2004, comecei a escrever o que chamo atualmente de minha peça ZERO. Naquela época eu havia acabado de sair de um emprego no qual trabalhava em regime de semiescravidão psicológica, num videoclube de DVDs que fez história entre meus amigos e ao qual eu dedicava não somente parte dos meus dias, como também doava – em troca de um mísero salário – parte da minha capacidade intelectual e julgamento crítico, além de um certo conhecimento sobre cinema e arte.


Até que um dia fui informado que a tal loja estava falindo e que em poucas semanas eu seria demitido, sem nunca ter visto nem 10% do que haviam me prometido em quase dois anos de exploração consentida. E foi aí que decidi que eu ia parar com aquela procrastinação e fazer o que quisesse da minha vida. Ia começar escrevendo uma peça - sim, uma peça! Hoje, passados quase 10 anos isso parece algo natural, afinal de contas as pessoas escrevem peças, e por aqui cada vez mais, mas naquela época isso parecia improvável não somente porque eu nunca tinha escrito um texto para teatro, mas também porque não existia nem formação nem sequer incentivo pra isso em Porto Alegre, pelo menos não tanto e tão efusivamente quanto hoje. Portanto, com o tempo todo em meu favor, decidi que me trancaria no apartamento que dividia com uma amiga e usaria o dinheiro da rescisão do contrato (uma miséria, por suposto) para me dedicar somente a escrever e a estudar pro vestibular (decidi também parar de enrolar e entrar no Departamento de Arte Dramática da UFRGS de uma vez por todas). Por sorte eu tenho disso: em certas épocas da minha vida eu sei bem o que quero e foco nas coisas com convicção. Então, dividia o meu tempo entre a escrita, estudos, leituras e os afazeres da casa, da qual eu quase não conseguia sair, nem sequer para passear (nessa mesma época comecei a namorar um garoto, mas nem isso me tirou do objetivo principal a que havia me imposto). E eis que, num período de cerca de três meses fiz vestibular (e fui aprovado) e escrevi a tal peça ZERO, uma história sobre personagens aprisionados numa realidade distópica de um futuro reconhecível. Porém, mais uma vez, um fracasso. A peça era tosca, "estranha" na opinião de quem a lia. Mas apesar disso havia ali uma semente que me fascinava: a história de uma tímida secretária em processo de franca dissociação psicológica trancada num escritório - uma personagem que escrevi com toda a força e espontaneidade que a série de eventos anteriores podia proporcionar. Mesmo assim, engavetei-a e parti pra coisas mais importantes naquele momento.


Cerca de dois anos depois comecei um novo trabalho. O contexto era outro: tinha escrito meu primeiro texto para teatro (Andy/Edie), recebido um importante prêmio nacional por ele; além disso, a estreia da respectiva montagem estava prevista para acontecer dali a um mês e os elogios de quem o lia eram recorrentes. Então, como dizia, foi nesse contexto de “autor reconhecido" que comecei a escrever uma segunda peça, uma ficção científica sobre dois homens subindo até o topo de um prédio de centenas de andares para ver a destruição de uma metrópole, à qual chamei de “Elevador”. Com o dinheiro do tal prêmio que recebi por Andy/Edie (que por sorte era bastante), decidi fazer outra coisa que sempre quis, mas que até então não havia tido condições: viajar ao exterior (com o objetivo, entre outros, de continuar a escrita dessa segunda peça por lá). O lugar escolhido não poderia ter mais a ver com a atmosfera geral da narrativa: a Finlândia. Olhando em retrospecto, talvez Tóquio ou Londres tivesse ainda MAIS a ver, mas ir para Escandinávia tinha em si um quê estranhamento (na época não conhecia ninguém que tivesse ido até lá) e também uma certa frieza de hábitos que serviria a um texto sobre o fim do mundo. E serviu, de fato.... Porém, ao contrário do que imaginei ao embarcar, não consegui dar continuidade ao texto enquanto estive por lá; me contentei em terminar o relacionamento com o tal rapaz que conhecera dois anos antes, me deprimir e escrever contos aleatórios e confessionais falando sobre essa ruptura, contos esses até hoje inéditos.


Só no retorno ao Brasil é que voltei também ao tal texto. Dessa vez, porém, decidi que ia resgatar a história da secretária do limbo dos escritos perdidos e uni-la à narrativa dos dois homens num futuro apocalíptico. Escrevi a obra em períodos espaçados, enquanto produzia outras coisas ao mesmo tempo. Um ano depois, no final de 2007, recebi outro importante prêmio de dramaturgia (a Bolsa Funarte de Estímulo à Dramaturgia), dessa vez para concluir exatamente essa peça. Durante longos meses eu me debrucei sobre o texto e o terminei, finalmente, em junho de 2008. Um mês depois, recebi um parecer da comissão da Funarte que dizia:

Da região Sul ‘Elevador’, de Diones Camargo, cumpriu também com qualidade, competência, revelando uma linguagem contemporânea, com agilidade, humor, fluência dramática e dramatúrgica.

E ainda que tenha sido o único dos 11 textos selecionados pela bolsa a receber uma avaliação entusiasmada dos jurados e não ter sequer uma sugestão de alteração em seu conteúdo, mesmo assim, de lá pra cá, todo ano reviso o tal texto e o reescrevo um pouco, tentando equilibrar a história da secretária com a dos dois homens, refinando os diálogos e os pontos dramáticos de forma a deixar a trama mais ágil e crível, ao mesmo tempo que aproveito para atualizar as referências. No ano passado enviei uma versão revisada para um editor em Cuba que estava selecionando textos de autores brasileiros contemporâneos para serem publicados por lá. A peça foi selecionada e será publicada junto com obras de dramaturgos reconhecidos no Brasil, tais como Newton Moreno, Jô Bilac, Rodrigo Nogueira, Sérgio Roveri e Aimar Labaki. E em maio desse ano a peça Último Piso (sua tradução em espanhol), foi lida em Havana.


Isso mesmo, depois de tanta história, tantas horas de revisões e tantas modificações, a pela "Elevador" agora se chama Último Andar e ontem a noite foi finalmente lançada aqui em Porto Alegre numa leitura dramática com o elenco da Cia. Stravaganza, com direção de Liane Venturella, que interpretou a secretária Cecília. O público foi super-receptivo e se manteve firme até o final das 70 páginas. Um texto difícil, repleto de referências à literatura e ao cinema de Ficção Científica, mas que aparentemente agradou não apenas pela sua pertinência temática mas pelo seu humor alucinante e absurdo. Aproveito para agradecer aqui às pessoas que estiveram presentes na leitura dramática e à generosidade demonstrada com a obra, e agradeço também aos atores e artistas que levaram à cena, mesmo que por um período tão breve, porém de um jeito tão intenso, as minhas palavras.


Agora, depois de quase 10 anos de reescrita constante, sinto que ela está quase pronta para seguir por aí por conta própria. Assim, em breve encerrarei - finalmente - o meu trabalho nessa peça, mas só o farei quando tiver a plena sensação de missão cumprida. Uma missão a qual eu me dediquei todos esses anos, mas que fez valer cada hora desde que comecei nessa longa jornada. Um caminho árduo para narrar, ironicamente, uma história que se passa num único dia dos seus personagens, em uma peça que tomou quase uma década de vida do seu autor. O resto só o tempo (e o público) dirá (ão).




Um comentário:

KK Simões Pires disse...

Espetacular desde o relato de toda esta verdadeira "gestação" que foi a construção desta peça, Diones Camargo....Não sou da área e pouco sei do fascinante mundo do teatro, mas sou adepta e me fascinam as reflexões, as histórias e tu, és um exímio e pujante maestro nesta arte.... Que esta tua nova "filha" (narrativa, peça, obra ....) te traga MUITAS ALEGRIAS ... e (tomara) como fronteiriça, eu ainda possa vê-la TAMBÉM na minha abandona e desnutrida Fronteira, infelizmente, muito mais longe da cultura, do que nos muitos 500 quilometros que nos separam de oportunidades valiosas que seria a de poder acompanhar mais de perto trabalhos como os da tua qualidade e envergadura. Grande abraço! KK (Clarissa Simões Pires - Sant'Ana do Livramento - RS - BRASIL )

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