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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Não Há Anjos na América*

Adaptação da aclamada peça homônima escrita pelo dramaturgo Tony Kushner, Angels in America aborda o sentimento de desesperança e caos na Nova York de meados dos anos 80, quando os EUA – e o mundo todo – foram surpreendidos pela disseminação de uma praga até então pouco conhecida: o vírus HIV. O veterano Mike Nichols (Quem Tem Medo de Virginia Woolf , Closer) dirigiu este premiado filme que traz no elenco atores consagrados como Meryl Streep, Al Pacino, Emma Thompson e Mary-Louise Parker para narrar a trajetória de Prior Walter, um jovem homossexual que descobre ser soropositivo. Quando este conta ao namorado que foi “marcado pelo beijo púrpura da morte” esta revelação desencadeia uma série de outras situações periféricas (a dona de casa mórmon e viciada em valium que enfim percebe o real motivo da falta de desejo sexual do seu marido; o advogado conservador e corrupto que também foi contaminado e é assombrado por antigas lembranças; um enfermeiro que espera a morte de seu paciente apenas para roubar-lhe o estoque pessoal de AZT, conseguido graças à sua influência na política). O texto expõe as angústias de vários personagens cercados por mentiras e dogmas rígidos – sejam eles de crença, política ou comportamento – que os isolam na solidão das próprias certezas, incapacitando-os de manter relações sinceras e verdadeiramente humanas. Apesar do tema apocalíptico (o esfacelamento psicológico do homem na sociedade contemporânea), ele também preserva uma faceta mais irônica, evocada por diálogos afiados e avassaladores que, sem dúvida, são ressaltados pelas interpretações fenomenais do elenco. Há também uma espécie de esperança cruel: a consciência da evolução inevitável da humanidade, que obriga-a, assim, a superar seu mais abomináveis preconceitos. Uma obra de valor ímpar, ousada e impactante, sobre temas que, infelizmente, ainda nos são atuais.

Diones Camargo

* Texto Publicado Originalmente na Revista Wake Up - Edição Fev/2006

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